António Alves Martins
(1808-1882)

Jornalista, eclesiástico e político, António Alves Martins desempenhou um papel importante na sua época: no Estado (ministro em 1868-1869 e 1870-1871) e na Igreja (bispo de Viseu). Deixou fama de austeridade, honradez, valentia e "inflexibilidade de carácter", reflectidas na célebre máxima que a posteridade gravou no sopé da sua estátua, em Viseu (e, em dada época, uns vândalos picaram): "A Religião é como o sal na comida: nem de mais nem de menos" (citamos de cor). Dois factos atestam a fidelidade de Alves Martins aos princípios liberais: em 1828 foi riscado da Universidade de Coimbra, quando frequentava o 3.° ano de Teologia; em 1867, numa reunião em Roma, recusou-se a subscrever a proclamação que defendia o poder temporal e a infalibilidade dos papas. A este respeito escreve João Joaquim de Almeida Braga: "Dizia-se que desejando os Prelados reunidos em Roma testemunhar ao Santo Padre o quanto estavam de acordo sobre a necessidade da conservação do poder temporal da Igreja para o livre exercício do seu poder espiritual, e redigindo para isso uma exposição, de mais de quatrocentos bispos, um membro do episcopado, um apenas, um só, V. Ex.ª, se havia recusado a assinar aquele documento. / Esta nova causou profunda mágoa a todos os que prezam a honra do episcopado e o bom nome do povo português" (in O Poder Temporal dos Papas, Braga, 1867, p. 4). O desacordo, naturalmente, estendia-se ao campo político, onde os adversários o não poupavam. Chamado à capital para formar governo, em 1870, O Nacional tratou-o desta maneira: "Chegou a Lisboa a rechonchuda pessoa do Sr. Bispo de Viseu. Na gare do caminho de ferro era esperado pelos seus amigos Tarujos e lá teve uma das tarujeiras recepções. / Que vai fazer a Lisboa o Bispo de Viseu?"

Acontece que anos antes António Alves Martins fora o responsável político de O Nacional. Foi na redacção do periódico portuense que Camilo conheceu em 1849 Alves Martins. O romancista recorda o acontecimento em 1884 em O Vinho do Porto: "Eu tinha a meu cargo a secção das frioleiras. O meu chorado amigo bispo de Viseu exterminara-me do distrito sério do jornal, quando descobriu que os meus artigos-de-fundo eram comentários e parafrases miguelistas ao Rei chegou, escritas un peu à la diable". Em 1870, quando o bispo estava no poder, Camilo ensaiou a segunda tentativa para alcançar a nobilitação, como se vê na Luta pelo Viscondado. Nesse mesmo ano Camilo fez imprimir o "esboço biográfico" do prelado e estadista: D. António Alves Martins/Bispo de Viseu, onde traça o itinerário do valente combatente "em prol da liberdade, cujo berço ele embalou entre ferros" (op. cit., p. 36, da 2.ª ed.), aliás largamente aproveitado por biógrafos e dicionaristas, sem se dignarem indicar sequer a fonte. Em 1880 dedica-lhe Luís de Camões/Notas Biográficas: "A / D. António Alves Martins / Bispo de Viseu / Oferece o discípulo e amigo / Camilo Castelo Branco." Volta a lembrá -lo em 1887 na "Procissão dos Mortos", consagrando-lhe um extenso comentário em que enaltece as virtudes (austeridade e honradez) do seu amigo bispo de Viseu.

De facto, amigos ficariam até ao fim. Infelizmente perderam-se as cartas de Camilo para o distinto prelado. Conhecemos, porém, 15 cartas de Alves Martins para o romancista - julgamos que totalmente inéditas: 3 de 1869; 1 de 1870; 3 de 1871; 1 de 1873; 1 de 1879; 5 de 1880 (em algumas destas o ano não é facilmente decifrável), e 1 de 1881. Da carta de 19-8-1871 (de Viseu): "[..] Pois saiba, meu caro Amigo, que a sua correspondência é a única que me serve de bálsamo nas agruras desta vida de velho, doente, e sofrivelmente apoquentado.[...] V. Ex.ª, ao menos, pela criação dessa literatura, monumento imorredouro, deixa um nome aos seus filhinhos; mas eu, lançado, tão cedo, nas peregrinações da árida política, gastei a seiva nas lutas estéreis, e sonhando um ideal de moralidade social, se me deparou a triste realidade dum egoísmo brutal, manifestado num desencadeamento de infrenes interesses, que atrofiam as mais sinceras aspirações...".
In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003