António José Pereira Coutinho
(?-1889)

Conhecido por morgado de Pereira, António José Pereira Coutinho, "último senhor da honra e couto de Esmeriz", como dele diz Camilo nas Noites de Insónia (p. 108, da ed. de 1929), era conviva frequente de São Miguel de Seide. Esteve presente nas festividades organizadas em honra de António Feliciano de Castilho e Tomás Ribeiro, em 1866. Foi nessa época que o romancista o apresentou a José Cardoso Vieira de Castro, então visita assídua de Ceide, antes da viagem ao Brasil.

Quando o uxoricida foi deportado para Luanda, o morgado de Pereira seguiu na sua companhia, associado na empresa mercantil que Vieira de Castro pensava criar (e criou) em Angola. Falecido Vieira da Castro, Pereira Coutinho regressou a Portugal (1873) trazendo o espólio do defunto, que entregou ao seu compadre, o escritor C.C.B. Encontram-se inúmeras referências a este morgado (que os biógrafos terão confundido com Manuel Plácido, o "morgado" de Ana Plácido) nas cartas entre Vieira de Castro e Camilo, coligidas em 1874 na Correspondência Epistolar.

António José Pereira Coutinho pouco se demorou no continente. Voltou a Angola, depois de ser agraciado com o grau de cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (via Camilo), levando consigo a família e... Manuel Plácido, conforme noticiava O Primeiro de Janeiro (n.º 154, de 6-7-1873): "[...] Em sua companhia foi não só sua esposa e dois criados, como também o filho mais velho da Sr.a D. Ana Plácido". Desfaz-se assim o equívoco, perfilhado por todos os biógrafos, de que Manuel Plácido fora companheiro de viagem do degredado Vieira de Castro (v. Estudos Camilianos/I, de A. C., Cap. "O filho de Ana Plácido não acompanhou, em 1871, Vieira de Castro ao degredo", pp. 61 e seg.).

No romance O Senhor do Paço de Ninães (1867), Camilo introduz a seguinte nota, quando uma personagem fala em "recomprar as quintas e fazer de ouro os padrões das Honras de algumas":

"Estes padrões, ou colunas de pedra, significativas de couto, ainda agora se conservam em muitas quintas. Especialmente na da quinta de Pereira de Esmeriz, pertencente ao Sr. António Pereira Coutinho, li: Quem pozer a mão n'esta columna não poderá ser preso. A casa actual desta quinta, vizinha do Rio Ave, ergueu-se, ao que se presume das genealogias, sobre as ruínas do solar dos Pereiras, ascendentes de D. Nunálvares" (p. 62, da 8.ªed., 1966).

Como se depreende, trata-se da quinta do morgado de Pereira, António José Pereira Coutinho, falecido no Casengo em 1889.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003