António Vicente
(1821-1911)

Filho do desembargador e juiz António Vicente de Carvalho e Sousa, António Vicente de Carvalho Leal e Sousa, conhecido familiarmente por António Vicente, não conseguiu, por motivos de saúde, formar-se em Direito e seguir a carreira paterna, como ambicionava. Era, porém, dotado de apreciável cultura, mantendo um grande afeto pela literatura, como seu pai, que, além de poeta, foi infatigável tradutor de autores franceses (v. Dicionário Bibliográfico Português, I, pp. 286-287). Senhor de apreciável fortuna, herdou a Quinta e o Mosteiro de Santa Maria de Landim, onde viveu e morreu.

As suas relações com Camilo Castelo Branco foram afetuosas e estáveis, ainda que, tanto de um lado como do outro, se encontrem raras referências - ou nenhuma - sobre esta amizade. Camilo regista o nome de António Vicente numa passagem de O Senhor do Paço de Ninães: "O antigo mosteiro [de Landim] é hoje a bela casa e quinta do meu amigo António Vicente de Carvalho Leal de Sousa, herdeiro e sobrinho do último capitão-mor de Landim" (op. cit., p. 261, da 8.ª ed. de 1966). Que nos lembre, encontramos outra referência numa carta à filha Bernardina Amélia: "Constipei -me antes de ontem indo visitar o António Vicente que cegou dum olho, e é de esperar que cegue do outro" (espólio "Bernardina Amélia", in Biblioteca Nacional: carta da 2ª quinzena de fevereiro de 1882).

No que respeita ao proprietário do Mosteiro de Landim, não se encontra no seu diário um único registo do nome do amigo, segundo a informação da escritora Emília Sampaio Nóvoa Faria. Recorde-se que Camilo frequentava com regularidade a casa de António Vicente que, inclusive, lhe reservara um quarto no mosteiro, conhecido por "quarto de Camilo", onde "escreveu alguns dos seus romances" (in Camilo em Landim, p. 14). É certo, porém, que a amizade entre António Vicente e Camilo Castelo Branco se manteve imperturbável desde os anos 60, pelo menos. António Vicente era o salvatério nos períodos de crise para o casal de S. Miguel de Seide. As informações sobre este delicado assunto colhem-se no Camilo em Landim. Das 7 cartas publicadas de Camilo (4 de 1869, 1 de 1885 e 2 s/d), 5 fazem referência a empréstimos e dívidas. Das cartas de Ana Plácido a António Vicente, a agradecer-lhe o ritual das boas palavras na dolorosa data de 1 de junho, numa (de 4-4-1893) trata do pedido de empréstimo de "500$000 mil réis a juro, por 6 meses" (op. cit., p. 63).

Episódio curioso, divulgado pela mesma autora, é o da remoção das pedras com carateres góticos que Camilo pretendia decifrar para o enredo do romance O Senhor do Paço de Ninães e que originou um agravo "pelo crime de violação de túmulos e sepulturas". Na defesa, António Vicente refere as razões que o levaram a levantar as tais pedras: "O fim do Agravante quando mandou levantar da Sacristia as já mencionadas lápides, não foi por certo o de profanar as sepulturas quando estas existissem, e menos o de faltar ao respeito devido aos mortos. O seu fim foi o de satisfazer aos desejos do nosso grande Literato e Romancista o Ex.º Camilo Castelo Branco, que desejando obter esclarecimento para a parte histórica e arqueológica do seu romance que então compunha - O Senhor do Paço de Ninães - se dirigiu ao Agravante para que este lhe deparasse algum livro ou manuscrito que o instruísse".

A "Minuta de agravo Crime" foi reproduzida integralmente por Emília Sampaio Nóvoa Faria no Camilo em Landim (pp. 89-100).

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003