José Augusto Pinto de Magalhães
(1828-1854)

Amigo íntimo de Camilo, que foi seu confidente, José Augusto Pinto de Magalhães, como ultra-romântico que era, viveu a história mais pungente que se possa imaginar. Apaixonou-se por Fanny Owen, ao que parece depois de namorar sua irmã Maria. Visita assídua de Vilar do Paraíso (concelho de Vila Nova de Gaia), onde residia a esposa do coronel inglês Hugo Owen com seus 4 filhos (2 rapazes e 2 meninas), benquisto da família da noiva, nada levaria a supor o acto tresloucado que praticou: na noite de 11-6-1853 raptou a amada, levando-a para a sua Quinta do Lodeiro, no concelho de Baião. Em seguida vem a saber que a «sua» Fanny se carteara com um cidadão espanhol, de nome Fuentes (viu e leu as cartas que a jovem lhe escrevera — ao Fuentes — no período em que ela confessava amá-lo). Apesar da grande perturbação que o facto lhe provocou, como cavalheiro brioso, casou com a raptada em 5-9-1853 na Igreja de Santo Ildefonso, no Porto. Os noivos estiveram ausentes da cerimónia, representados por amigos. Adivinha-se, por estas particularidades, o que terá sido a vida doméstica dos recém-casados na «casa triste» do Lodeiro: um tormento, que felizmente durou pouco. Antes de concluído um ano de matrimónio (que nunca chegou a consumar-se), Fanny adoeceu gravemente, vítima de tuberculose, indo morrer a Vilar do Paraíso (3-8-1854). Feita a autópsia, o médico que a fez, Joaquim José Ferreira, íntimo do confidente de José Augusto, confirmou-lhe a suspeita: «—Virgem, como se nunca saísse do regaço de sua mãe!» O viúvo mandou embalsamar o cadáver e guardou-lhe o coração num sacrário, que se conservou durante muitos anos na Quinta do Lodeiro. Atormentado, porventura, pelos remorsos, José Augusto vai para Lisboa, hospedando-se num hotel da Travessa de Estêvão Galhardo. Aí faleceu a 29-9-1854, transcorridos pouco mais de 2 meses sobre a morte da infeliz esposa.

Propalou-se — sabe-se lá por que artes! — que o causador da desgraça de José Augusto Pinto de Magalhães fora o seu íntimo amigo Camilo Castelo Branco, devido à paixão por Fanny (despeito?, vingança?): fora ele que o instigara ao rapto e que fizera com que as cartas dirigidas ao espanhol lhe fossem entregues. António Cabral, que trata do caso miudamente com documentos importantes no Camilo de Perfil (2.ª ed., 1922; capítulo: «Uma casa triste/Triste romance!...», pp. 96 e seg.), conta a este respeito: «No periódico literário A Semana, Camilo, dando notícia da sua tentativa de suicídio, em 1847 e da poesia A harpa do céptico, que escreveu nessa hora de loucura, refere-se a um dos amigos que então o arrancaram à morte — José Augusto Pinto de Magalhães — nos seguintes termos:

“Já lestes [sic] Manon de l’Escaut? [O título do romance é Manon L.escaut.] Sabeis como era Tilberge? Assim era esse homem... que perdi. / Eu fui-lhe um ingrato sem infâmias!...”» (op. cit., p. 109.) E concluem: «Eu fui-lhe um ingrato sem infâmias!... A frase, parecendo misteriosa, é clara e transparente para quem tiver lido os períodos elucidativos de No Bom Jesus do Monte e também as últimas páginas do capítulo VII da biografia de Camilo Castelo Branco, escrita por Vieira de Castro. / Deixemos em paz os mortos!» E indubitável que António Cabral estabelece íntima relação entre A harpa do céptico — com a nota adjunta em A Semana— e o caso José Augusto/Fanny Owen («Eu fui-lhe um ingrato sem infâmias!..»). Na concludente opinião de António Cabral o confidente do desvairado romântico denunciava o seu remorso numa frase que, «parecendo misteriosa, é clara e transparente», afirmando, por fim: «Deixemos em paz os mortos», como quem benevolamente pede para esquecer a «infâmia» de Camilo. Mas que tem que ver A harpa do céptico com o caso José Augusto/Fanny Owen?

Esclareça-se a questão. O próprio Camilo reconhece ter encetado relações de amizade com José Augusto Pinto de Magalhães em 6-6-1849 (in Duas Horas de Leitura, cap. «Sete de Junho de 1849»). E tão sólida se tornou logo essa amizade que Camilo passou uma temporada no Lodeiro, como se vê pela poesia Desalento, com a indicação do local e data: «Quinta do Lodeiro, 26-11-1849» (in O Nacional, n°275, de 29-11-1849), e pela poesia A castelã de Baião/Solau/ (Ao meu amigo José Augusto Pinto de Magalhães), com a indicação: «Lodeiro, 27-11-1849» (no mesmo jornal, n.°276, de 30-11-1849). Quanto à A harpa do céptico, a poesia, com a data de 23-8-1849, foi publicada originalmente em O Nacional(n.° 224, de 4-11-1849); reimpressa em A Semana(n.°36, Setembro de 1850), com o subtítulo «Derradeira corda da lira», sem data e uma extensa introdução:

«Antes de uma poesia» — a parte final do poema fecha com o trecho transcrito por António Cabral; coligida ainda nas lnspirações, de 1851 (pp. 25- 30, com a nota reduzida à parte erudita e teórica e a data alterada para 1-9-1849), e, finalmente, nas Duas Épocas na Vida, já sem a nota, sem data e com a epígrafe «Enfer!.../Dévoille». A estranheza que salta à vista é esta: se acreditarmos na tentativa de suicídio de Camilo em 1847, José Augusto não podia ser um dos seus salvadores, visto que só se conheceram em 1849, além de que a Harpa não é de 1847, mas de 1849, como vimos. Outra estranheza: que tem a ver a frase escrita em 1850, e depois eliminada («Eu fui-lhe um ingrato sem infâmias!»), com o drama amoroso José Augusto/ /Fanny Owen que só aconteceria em 1852-1853? É indubitável que A harpa do céptico foi escrita numa fase de desespero pelo repúdio de uma mulher «tão déspota de seus encantos e de sua posição social» (itálico pelo autor). Ora, «a mulher dos tremendos sacrifícios», que se tomara numa «serpente de ferocidade, como fora um anjo de amor!», não é Fanny, nem Ana Plácido. Chamava-se, provavelmente: Maria Felicidade do Couto Brown.

Continuemos a desenredar a intriga. Parte do ano de 1850 passou-o Camilo em Lisboa e regressado ao Porto reata as relações com José Augusto Pinto de Magalhães, e tão amistosas, e tão confiantes, que acompanha o amigo numa estada em Vilar do Paraíso, donde escreve algumas poesias: Ao mérito (in O Bardo, n°4, pp. 49-50), com a indicação: «Vilar do Paraíso, 15-6-1852», e Alegria (in O Bardo, n°5, pp. 67-69), com a indicação: «Vilar do Paraíso, 19-6-1852». Ambas as poesias foram recolhidas nas Duas Épocas na Vida, mas sem data (respectivamente a pp. 35-37 e 142-144). Aparece ainda nas Duas Épocas na Vida uma outra poesia:

Meditação/À Exmª Sr.ª D. Fanny Owen. E credível que Camilo se tenha enamorado por uma das irmãs, ou pelas duas, como acontecera a José Augusto.

Camilo trata dos trágicos amores de José Augusto Pinto de Magalhães e Fanny Owen, fundamentalmente, em Duas Horas de Leitura (cap. «Sete de Junho de 1849») e No Bom Jesus do Monte (cap. «1854»). Amândio César dá à estampa o «Diário íntimo» de José Augusto no seu livro A Casa Assombrada de S. Miguel de Ceide (1 ª ed., Famalicão, 1964, pp. 61-93).

In CABRAL, Alexandre – Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003