D. PEDRO II (do Brasil)
(1825-1891)

Filho de D. Pedro IV de Portugal e 1.° do Brasil, D. Pedro de Alcântara foi o 2.° imperador do Brasil e manteve as melhores relações epistolográficas (e pessoais) com os mais notáveis representantes da intelectualidade portuguesa, entre eles C.C.B., que visitou por duas vezes.

1ª - No Porto, a 2-3-1872, residindo o romancista na Rua de S. Lázaro. Nessa entrevista estiveram presentes Guilherme Braga e José de Azevedo Castelo Branco, além de Ana Plácido, naturalmente. "Por esta ocasião o ilustre romancista ofereceu ao seu hóspede um quadro com os retratos dos vinte e um primeiros reis portugueses, que passa por ter sido pintado ainda no reinado de D. João IV. O senhor D. Pedro, agradeceu, comprazendo-se de possuir uma lembrança de Camilo Castelo Branco" (in Boletim da Casa de Camilo, 1ª série, nºs 3-4, julho-dezembro de 1964, p. 47, em transcrição da Viagem dos Imperadores do Brasil em Portugal, Coimbra, 1872).

2.ª - Em Lisboa, na Quinta do Vale do Pereiro, a 21-12-1889, depois de D. Pedro II ter sido destronado.

De regresso ao Brasil, após a primeira visita a Camilo, D. Pedro II agraciou o romancista (e outros intelectuais) com o grau de comendador da Ordem da Rosa (v. Diário de Noticias, n°45, de 14-8-1872). A respeito confidencia o galardoado a António Feliciano de Castilho:

"Não rejeito para não ofender o imperador; mas faço de conta que tal coisa não existe, nem falo nisso senão à minha sombra de comendador" (in Correspondência de C.C.B., de A. C., ed. Livros Horizonte, IV, p. 38; carta s/d, mas provavelmente de julho de 1872).

Todavia, nesse mesmo ano o romancista dedicou o Livro de Consolação "A SUA MAJESTADE / O Senhor D. Pedro Segundo / Imperador do Brasil": "Desde o momento em que Vossa Majestade me honrou a obscuridade, fazendo-me sentir que vinte e dois anos de incessante lidar mereciam o galardão de alguns minutos gloriosos, também eu cobrei alentos para chegar até à mesa de estudo do douto Imperador, e esperar ali uma hora muito feriada de leituras proveitosas para então lhe oferecer com respeitosa confiança um livro de mero desenfado, pois não tenho mais nada com que possa significar a Vossa Majestade a minha gratidão."

De registar que no ano anterior (1871) Camilo prefaciara a edição portuguesa da biografia do imperador, intitulada O Senhor D. Pedro II, da autoria de monsenhor Joaquim Pinto de Campos.

Precisamente uma semana depois da visita a Camilo do destronado imperador do Brasil falecia a esposa no Porto, a imperatriz Teresa Cristina (28-12-1889). Por essa altura Tomás Ribeiro editou o 1.º número de O Mensageiro, "consagrado a Sua Majestade Imperial o Sr. D. Pedro d'Alcântara", em que Camilo colaborou, lembrando a honra que tivera em conhecer pessoalmente o imperador (v. Dispersos, IV, pp. 595-599).

Aquando da primeira visita a Portugal da majestade imperial (1871-1872), a imprensa ofereceu ampla cobertura às viagens dos imperadores no país (v., por ex., o Diário de Notícias), tendo o Brasil dedicado um número especial a sua majestade ”na sua tornada para o Brasil” (nº 21, de 7-3-1872), com colaboração de José Feliciano de Castilho, A. M. da Cunha Belém, A. X. Rodrigues Cordeiro e Augusto Emílio Zaluar. Na 1ª página, em parangonas enormes, um soneto de António Feliciano de Castilho: “Vieste do mais amplo e mais florente império, / ver em transes cruéis finar-se o antigo mundo. / Foge, transpõe voando o Atlântico profundo, / que aparta deste inferno os céus do outro hemisfério.” O mesmo periódico publica mais tarde um soneto de João de Deus, com a nota de ter sido “feito por ocasião da estada de S. M. o Imperador em Lisboa” (nº63, de 26-1-1873): “Os reis são reis pela sabedoria / Quem a não tem não pode ser monarca / Vós sois digno de o ser no Novo Mundo.” Como se sabe registaram-se vozes discordantes.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003