António Feliciano de Castilho
(1800-1875)

Descendente de uma família com marcadas vocações literárias, António Feliciano de Castilho cegou na puerícia devido a um ataque de sarampo, o que não o impediu de adquirir uma ilustração diversificada, graças à sua persistência no estudo e, particularmente, aos carinhosos cuidados da família, com destaque para seu irmão Augusto Frederico, que no dizer do 2.° visconde de Castilho "era os seus olhos, os seus passos, as suas mãos" (in Memórias de Castilho, 1, p. 49).

Publicou as suas primícias literárias em 1816: Epicédio na Sentida Morte da Augustíssima Senhora D. Maria I, etc., que mereceu os gabos de José Agostinho de Macedo. Estudou em Coimbra (1817-1822) onde se formou em Direito, sendo acompanhado de seus irmãos mais novos, incluindo naturalmente Augusto Frederico. Castilho aplaudiu a Revolução de 1820. A fortuna sempre o bafejou: como estudante recebeu uma benesse de D. João VI, que lhe valia anualmente um conto de réis. Publicou Cartas de Eco a Narciso (1821) e, logo a seguir, A Primavera (1822). Ainda em Coimbra organizou com outros vates um festival na Lapa dos Esteios (que teve êxito e se repetiu), que passaria a denominar-se Lapa dos Poetas, nome que persiste ainda hoje para designar o local.

A vida de Castilho é um exemplo de tenacidade, perseverança, trabalho e espírito de iniciativa, deixando por onde passou a sua marca. Esteve um período em São Miguel, onde fundou a Sociedade dos Amigos das Letras e Artes (1849), lecionando em Ponta Delgada, onde teve como aluno Antero de Quental e editou A Felicidade pela Agricultura (1849). Em 1855 deslocou-se ao Brasil, onde foi representado o seu drama Camões (1.ª ed. de 1850), tendo sido agraciado com a Ordem da Rosa pelo imperador (em 1872 será distinguido com a grã-cruz da mesma Ordem). Nessa altura interveio em defesa de um velho português, condenado a 12 anos de trabalhos forçados, escrevendo a célebre Epístola a Sua Majestade a Senhora Imperatriz do Brasil, editada em Coimbra no ano imediato (1856). A colónia portuguesa, em recompensa, ofereceu-lhe uma pena de ouro avaliada em um conto de réis (1858). Em 1866 visitou Paris com seu irmão José Feliciano (de passagem em Portugal) tendo sido recebido e homenageado pelos mais famosos escritores franceses: Alexandre Dumas, Ferdinand Denis, Jules Janin, etc.

Participou ativamente no levantamento da estátua a Bocage, em Setúbal, com seu irmão José Feliciano, que representava a comissão de portugueses radicados no Brasil (1867; inauguração em 1871). Deve lembrar-se também a sua posição quanto à localização da estátua a erigir ao Épico Nacional, Luís de Camões, no local onde existiram os "casebres do Loreto". Numa carta ao poeta António Pereira da Cunha escrevia: "O monumento assim inspirou-me mais zanga que entusiasmo. Repugna-me ver o Camões de sequeiro, sendo ele poeta essencialmente marítimo." Entendia que a estátua devia ser transferida "para o largo de Belém, para o Cais do Sodré, ou para alguma praça nova no Aterro" (1867).

Pode dizer-se que, desde criança, privou com as eminências mais gradas do País, devido à elevada posição de seu pai, o Dr. José Feliciano de Castilho (António Ribeiro dos Santos, Machado de Castro, José Agostinho de Macedo). Considerado, historicamente, com Garrett (que conheceu em Coimbra) e Herculano (de quem foi íntimo amigo, até à inesperada ruptura de relações) o máximo expoente do Romantismo em Portugal.

Consorciou-se, em primeiras núpcias, com Maria Isabel de Baena Coimbra Portugal, falecida a 1-2-1837, contraindo segundo matrimónio com Ana Carlota Vidal, falecida a 18-6-1871, de quem teve 5 filhos. Nobilitado em 1870 (decreto de 25 de maio) com o título de visconde de Castilho, em duas vidas, pela "sua consumada literatura e os eminentes serviços por ele prestados à instrução primária e às letras pátrias".

Foi responsável pelo desencadear das duas mais turbulentas polémicas: Bom Senso e Bom Gosto (1865-1866), pela carta ao editor António Maria Pereira, que apareceu como posfácio ao Poema da Mocidade, de Manuel Pinheiro Chagas, e Questão Faustiana (1872-1873), devido à sua controversa tradução do Fausto, de Goethe.

Além da sua atividade no Conselho Geral de Instrução (onde defendeu e impôs o seu Método de Leitura Repentina, 1.ª ed. de 1850, ao regressar de Ponta Delgada) - pasmosa, a avaliar pelo espólio a este respeito conservado nos arquivos da Torre do Tombo -, dedicou-se com afinco aos seus trabalhos literários onde avulta a faina de transpor para português os mais conhecidos autores: Molière, Shakespeare, Goethe, Cervantes. Organizou ainda a Livraria Clássica, de colaboração com o irmão José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha, a residir no Brasil, onde se publicaram, entre outros, Manuel Bernardes, Fernão Mendes Pinto, Garcia de Rezende, Bocage e António Ferreira (extratos e nota biográfica de cada autor).

Os jovens, que começaram por o reverenciar e visitar até em sua casa, abriram guerra cerrada contra a sua autoridade. (Não havia dia em que a imprensa não inserisse cartas de Castilho a louvar este ou aquele escritor - da sua parcialidade.) Na opinião de Teófilo Braga, o seu mais contumaz adversário, Castilho "arvorou-se em chefe, desde 1865 até 1875, ano em que morreu, do grande grupo dos autoritários que constituem a Pedantocracia portuguesa" (in História do Romantismo em Portugal, 1880, p. 494).

Camilo Castelo Branco não escapou à regra. Desde as primeiras produções (pelo menos a partir de 1849) que celebra com entusiasmo o nome de Castilho (Garrett e Herculano também), a quem chamará Mestre. E certo que, por vezes, se lhe refere em tom galhofeiro (e outras, nos momentos de maior azedume, em termos pouco edificantes): "Tornando à ortografia etimológica", escreve em 1855, "penso que dispensamos essa canseira, depois que o visionário Castilho inventou a ortografia ao alcance das cozinheiras" (cartas de "José Mendes Enxúndia", Dispersos, II, p. 339).

Como quer que seja, as relações entre os dois homens de letras consolidaram-se numa amizade e admiração recíprocas invulgares. O romancista colocou-se sempre ao lado do poeta nas já citadas polémicas: Bom Senso e Bom Gosto e Questão Faustiana.

Na sua permanente cisma pela instrução primária universal - a fulgurante estrela dos seus olhos apagados-, o "visionário Castilho" incita o "discípulo" a publicar uma obra que reforçasse a sua campanha de alfabetização, mais, que transformasse a escola (e o ensino) em qualquer coisa de muito luminoso e alegre, já que "a sua voz, é das raríssimas que se escutam em toda a parte": "Veja se dá um romance consagrado principalmente a fazer ressair a infame bruteza da escola galé, e do ensino sevícia; a deserdação enorme que nisto vai para o futuro [...]. / Abra os olhos a esses cegos voluntários, para que vejam; toque-lhes o cérebro com um sopro do seu talento, para que entendam, acorde-lhes o coração, para que não continuem neste sono de catalépticos" etc. (carta de 1-9- 1864, em Castilho e Camilo, p. 3).

Em 1866, como se sabe, Castilho visitou o romancista em Seide, acompanhado do filho mais novo, Eugénio, e do poeta Tomás Ribeiro. Para avaliar dos sólidos laços que uniram os 2 infatigáveis trabalhadores das letras portuguesas leia-se a Correspondência de Camilo Castelo Branco, ed. Livros Horizonte, tomos III e IV, de A. C.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003