Francisco Martins Sarmento
(1833-1899)

Natural de Guimarães, Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento, que ficou conhecido pelo nome abreviado de Francisco Martins Sarmento, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra (1853), tendo-se celebrizado como etnólogo, arqueólogo e historiador. Começou por poetar, quando ainda académico, colaborando na Miscelânia Poética (1852), onde publicou 3 poesias, assinadas Francisco Martins de Gouveia M. S. (Morais Sarmento), e em O Bardo (1852-1854), também com 3 poesias, assinadas só F. Marfins. Com este nome publicou em 1855 uma colectânea com o singelo título Poesias. A notabilidade, porém, adveio-lhe das escavações efectuadas na Citânia de Briteiros e dos muitos trabalhos eruditos que escreveu, com destaque para: Observações à Citânia do Sr. Doutor Emílio Hübner (1879), Os Lusitanos. Questões de Etnologia (1880), "Os Argonautas / Subsídios para a antiga História do Ocidente" (1887) e "Ora Marítima, de R. Festus Avienus. Estudo deste poema na parte respectiva às Costas Ocidentais da Europa" (1896), em 2.ª ed. A 1ª ed. de Ora Marítima, de 1880, saiu com o subtítulo mais restrito: "Estudo deste poema na parte respectiva à Galiza e Portugal". Amante da sua terra natal, que sobremaneira honrou, Martins Sarmento prestou colaboração, impulsionou ou fundou os seguintes periódicos: O Vimaranense, a partir de 1859, segundo informação de José Sampaio; A Justiça de Guimarães, de 1872 (que não vimos), e Revista de Guimarães (1.° número de Janeiro de 1884). Fundou em 1882 a Sociedade Martins Sarmento, ainda hoje orgulho da cidade vimaranense, à qual legou todo o seu património - de valor incalculável.

Sarmento relacionou-se com Camilo, de quem foi amigo verdadeiro ( "um amigo, como usam raramente ser os irmãos"), por volta de 1852, quando juntos colaboravam nos jornais de poesia então em voga no Porto. A prolongada convivência e a estima recíproca consolidou uma amizade fraternal que operou com eficácia nas situações difíceis da vida do romancista: quando perseguido pela justiça, devido ao processo de adultério, Camilo encontrou refúgio em casa de Martins Sarmento.

Camilo refere-se-lhe várias vezes: 1 .ª Em 1862, nas Memórias do Cárcere: "Pernoitei no ergástulo da Senhora Joaninha, e fui no dia seguinte para as Caldas das Taipas esperar que Francisco Martins me lá desse um leito em sua casa, e um talher à sua mesa./ Este remanso deu-me alma para ir de rosto contra os novos trabalhos. Francisco Martins consolava inadvertidamente, contando desgostos incomensuráveis da sua vida, tão em princípio ainda. Entretinha praticando em coisas de literatura amena, que a tem copiosa e variada. […] Algumas horas do entardecer passámo-las no Ave, em barquinho, revezando-nos na fadiga de remar, e cismando cada um nas suas saudades, ou nas suas esperanças, mas ambos tristes, quanto o dizia o silêncio" (op. cit., I, pp. 45-46, da 8.ª ed. de 1966).

2.ª - Em 1864, No Bom Jesus do Monte: "Quando eu estava na casa de Francisco Martins, de Guimarães, em Briteiros, na raiz da serra da Citânia, ensaiando forças para as solidões do cárcere... (sempre que posso, trago estas recordações a molde: não vejo outro jeito de expiar a tolice, se não confessando-a e relembrando-a). Vinha dizendo, quando eu estava em Briteiros, fui dali, na volta da serra, entrar na cumiada da montanha do Bom Jesus" (op. cit., p. 138, da ed. s/d da LelIo).

3.ª - Em 1865, nos Esboços de Apreciações Literárias, sobre as Poesias de Sarmento (o texto é datado: "Porto, 1854", quando as Poesias são de 1855): "As setenta e seis poesias do Sr. Francisco Martins, que venho de ler com vagar de quem estuda uma vida, e decifra um homem de vinte e dois anos, são daquelas que marcam o paroxismo da última flama da fé para a escuridão impenetrável do desengano. [...] / O Sr. Francisco Martins é poeta. […] O estilo dele tem a encantadora desordem dos ímpetos que o fizeram sair, como pedaços de lava, que saltam da cratera, antes da inteira explosão" (op. cit., pp. 77-78, da 5ª' ed. de 1969).

4.ª- Em 1880, nos Ecos Humorísticos do Minho, onde Camilo conta a história da comenda que o marquês de Sousa Holstein solicitara ao duque d'Ávila para o erudito: "Pediu a comenda, cuidando que abria ao rei e ao ministro o ensejo de honrarem S. Tiago". O "António José da Vila, como seu pai, ou d'A vila, como ele se apelida", recusou (op. cit., p. 7). Mais adiante, prosseguindo o conto: "Há pouco tempo, outro secretário de estado, quando mandava lavrar decreto de mercê do hábito de S. Tiago a um pianista, ordenou que se lavrasse idêntico para o explorador da Citânia. Isto duplica a porcaria - permita-se a palavra, que não é mais suja que o facto; mas não se pode imputar a intenções ofensivas o que pertence à decomposição podre de tudo isto que se está esfacelando. Francisco Martins passou pelo asco de ter de rejeitar a graça que lhe vendiam por quatro ou cinco dúzias de libras" (op. cit., pp. 7-8).

5ª - Em 1887, registou o seu nome, sem comentário, em "A Procissão dos Moribundos" (in Óbolo às Crianças). Dedicou-lhe ainda dois livros: No Bom Jesus do Monte, em 1864, com extensa carta (pp. VII-XV), e, passados 10 anos, O Regicida: "AI Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento / oferece /o seu amigo mais devedor e agradecido".

Finalmente, os dois amigos entreteceram em 1887 uma polémica amena, nas colunas das Novidades, intitulada "Estudos da Velha História Portuguesa", usando os pseudónimos "O Egresso Bernardo de Brito Júnior" (Camilo) e "F. Fagundes" (Marfins Sarmento), reimpressa nesse ano em Óbolo às Crianças, o que permitiu ao inspirador da benemérita publicação, Joaquim Ferreira Moutinho, dá-los como autores da obra.

Os dois amigos corresponderam-se regularmente. As cartas de Martins Sarmento para o romancista, num total de 18, encontram-se na Casa-Museu de Camilo e estão registadas no Camilo Homenageado (pp. 93-96). Conhecemos mais 7, provavelmente inéditas. As de Camilo para Francisco Marfins Sarmento, em número de 15 (incluindo cartões), foram coligidas por A. C. na Correspondência de C. C. B. (ed. Livros Horizonte, v, pp. 117-137).

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003