José Francisco da Cruz Trovisqueira
(1824-1898)

Filho de lavradores de Trovisqueira, José Francisco da Cruz Trovisqueira emigrou para o Brasil aos 10 anos de idade (1834), onde granjeou apreciável fortuna. Regressando definitivamente à pátria, mandou construir em Vila Nova de Famalicão um magnífico e moderno palacete (1861), onde foram recebidas as mais distintas personalidades da sociedade nacional, a começar pelos reis portugueses, como foi o caso de D. Pedro V, em 1861, vindo a receber como recompensa a benesse de Comendador da Ordem de Cristo (1863), e D. Luís, em 1863, recebendo então a graça de Barão da Trovisqueira (1864), como aliás a imprensa noticiou, nos dois casos, sem subterfúgios (v., p. ex., A Aurora do Lima, n.° 1202, de 18-12-1863).

Além das suas actividades empresariais (é conhecido o projecto de 1870: o "caminho de ferro americano" que ligava o Porto à Foz do Douro), dedicou-se à política, militando no Partido Progressista, tendo sido deputado (duas vezes), administrador do concelho e presidente da Câmara de Famalicão, várias vezes - a primeira em 1872.

Como bons vizinhos, Camilo Castelo Branco deu-se amistosamente com o barão da Trovisqueira, a quem reconhecia dotes de trabalho e caráter leal e beneficente. E apreciava-o tanto que, descontente com o comportamento do tutor de Manuel Plácido, o Visconde de Lagoaça, diligenciou substituí-lo pelo Trovisqueira - e conseguiu-o. As intenções estão claramente expressas na carta que endereçou a Vieira de Castro, amigo do barão: "A D. Ana creio que hoje te escreve pedindo-te um favor para o barão da Trovisqueira aceitar a tutoria do pequenino. / O V. [Visconde] de Lagoaça, que era o tutor a meu pedido, porta-se mal por negligência e judaísmo que lhe impeçonha as veias. É necessário e forçoso escolher um homem de bem como o Trovisqueira, incapaz de prejudicar a mãe em favor do filho. Como tu aqui vens, facilmente o conseguirás, falando-lhe; mas se lhe escreveres, creio que também o conseguirás" (in Cartas de Camilo a Vieira de Castro, Lisboa, 1931, p. 40. Carta s/d, provavelmente de 1866).

Na correspondência de Camilo encontramos diversas referências a Vieira de Castro, associado por vezes ao barão da Trovisqueira. Destacamos dois exemplos:

1. (Ligado provavelmente à diligência do barão aceitar a tutoria de Manuel Plácido): "Ontem deixei ir o V. de Castro para o jantar do barão, e deixei-me ficar a brincar com o Jorge. Não sirvo para aquilo. Provavelmente perco a consideração daquele ricaço; e talvez não, que ele é um bom homem" (in Correspondência de Camilo Castelo Branco, de A. C., ed. Livros Horizonte, tomo III, p. 91. Carta ao Visconde de Castilho de 26-7-1866. V. ainda no mesmo vol., pp. 82-83, 93 e 106).

2. De uma carta a Eduardo da Costa Santos, s/d, mas de [28-2-1884]: "Não posso ir, porque Maria Isabel está com uma pneumonia cazioza, e pode em breves dias morrer. Ana Plácido está aterrada, e não quer que eu a deixe nesta conjuntura. Peço-lhe, pois, o favor de pagar na Águia o que eu dever, e suspender o aluguer do quarto. O Nuno apenas se demorou aí uma noite com a intenção de alugar uma quinta ao barão da Trovisqueira; parece-me, porém, que está tudo resolvido pela morte da pobre senhora" (idem, tomo VI, p. 66).

É natural que Camilo tenha sido algumas vezes convidado para as festas organizadas pelo Trovisqueira, em que era mestre, com o fim de homenagear personalidades de valor cultural ou político: o jantar pela formatura de Bernardino Machado (1873) e a visita conjunta a Famalicão do Conselheiro José Dias Ferreira, Manuel Pinheiro Chagas e José Maria de Almeida Teixeira de Queirós (1878). Ignoramos se o romancista compareceu a esses jantares ou lunchs, que a imprensa divulgava com algum relevo, mas a que o escritor era avesso.

José Dias Ferreira voltou a Famalicão em 1884. Camilo é convidado, mas exime-se a participar pelas fortes razões que expõe na (única) carta que se conhece dirigida ao barão da Trovisqueira: "Eu, da melhor vontade, iria ajuntar o meu aplauso aos brindes que se levantarem à benemerência do talentoso estadista, o Sr. Conselheiro Dias Ferreira, se dolorosas inquietações me não privassem de tomar parte no festim. / Minha nora, Maria Isabel, está na agonia de uma tuberculose, e minha neta está aqui em Seide preparando-se com dilacerantes angústias para acompanhar a mãe. [...] / Desculpe-me V. Ex.ª este desafogo inoportuno, que vai como justificação da minha falta" (in Cartas de Camilo Castelo Branco, de M. Cardoso Marta, tomo I, p. 97. Carta de 30-8-1884).

A respeito do barão da Trovisqueira, cons. Aspectos de Vila Nova, vol. IX "Factos e Nomes", de Vasco César de Carvalho, apesar de conter alguns lapsos.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003