Freitas Fortuna
(1840-1899)

Filho de João António de Freitas Júnior e irmão do médico e professor Vicente Urbino de Freitas, João António de Freitas Fortuna, capitalista portuense, foi dos amigos mais devotados e fiéis de C. C. B. Devem ter-se conhecido por volta de 1854, quando o romancista frequentava a tipografia de Freitas Júnior para impressão de obras suas. No entanto, só mais tarde as relações se transformaram numa sólida amizade, recíproca e permanente, de tal modo que se tratavam por "irmãos", correspondiam-se amiudadamente e Camilo e Ana Plácido permaneceram, por mais de uma vez, na casa da Ramada Alta, de Freitas Fortuna. Acabou por ser a sombra tutelar do escritor e partilhar com ele os acontecimentos mais importantes na etapa final da existência. Foi uma das testemunhas do tardio casamento de Camilo e Ana Plácido, no Porto (noite de 9-3-1888). Presume-se que tenha editado à sua custa o volume de versos Nostalgias, em 1888, que aliás lhe é dedicado. Em 1889 reeditou folhetos e raridades bibliográficas do romancista: O Caleche, Maria não Me Mates, A Murraça, Revista do Porto e Horas de Luta, em tiragens limitadíssimas. Ao mesmo tempo coligia escritos dispersos da juventude de C. C. B., editados por fim, nesse mesmo ano, por Eduardo da Costa Santos, sob o título de Delitos da Mocidade. Camilo dedicou-lhe o soneto Os meus amigos e incumbiu-o de escrever a sua "biografia moral": "Descreva o longo calvário dum grande desgraçado, sem generosidades mas com justeza; corrija [e castigue] os erros publicados […]; arranque as más- caras aos miseráveis, pois que então não estarei vivo, e não poderei ver-lhes as faces vincadas pelo tagante, visto que as têm menos coriáceas que as consciências". Precisamente em 1888, prevendo para breve o seu fim, o romancista roga-lhe para recolher o seu cadáver no jazigo da família Freitas Fortuna. Reproduz-se o essencial da célebre carta de 6 de abril: "Revalido por esta carta o que lhe propus com referência ao meu cadáver e ao seu jazigo no cemitério da Lapa. Desejo ser ali sepultado, e que nenhuma força ou consideração o demova de me conservar as cinzas perpetuamente na sua Capela.

É natural que ninguém lhe dispute a posse dessas cinzas; receio, porém, que haja ainda uma fatalidade póstuma, que se compraza em impor a violência até aos meus restos. Dê o meu amigo a estas linhas a validade de uma cláusula testamentária, e, sendo preciso, faça que valha em Juízo". Freitas Fortuna cumpriu escrupulosamente os rogos do amigo. Acompanhou o cadáver do romancista, fazendo-se fotografar na improvisada câmara -ardente, até à Lapa, onde ainda hoje se conserva. A declaração atrás transcrita foi responsável da não transferência dos despojos do glorioso escritor - já no nosso século - para o Panteão Nacional, como desejaram, propuseram e defenderam alguns dos seus mais devotados admiradores.

Gondim da Fonseca, no seu Camilo Compreendido, aponta um facto (verdadeiro) que pode deslustrar a amizade de Freitas Fortuna pelo romancista: "Quando Camilo morre, trata-lhe do enterro e manda a conta a Ana Plácido incluindo o preço da carruagem que alugou para o acompanhar... Uma rocha de dedicação. Que comédia, a vida!" (op. cit., II, p. 93). A este respeito, o Camilo Homenageado (p. 203) regista o seguinte: "Junto a estas cartas estão as contas do funeral do grande escritor, e os recibos do Freitas Fortuna nos quais declara a quantia que lhe entregara a Viscondessa, viúva, e o filho Nuno para pagamentos no Porto". Acrescente-se que, segundo a voz pública, Freitas Fortuna empobrecera (?) com os exorbitantes gastos que fizera com a defesa do irmão, Dr. Urbino de Freitas, acusado de envenenamento (precisamente em 1890).

Para compreender a amizade que uniu as duas famílias é fundamental consultar: "Dois Anos de Agonia/Cartas de Camilo e Ana Plácido a Freitas Fortuna", com notas de Júlio Dias da Costa (Lisboa, 1930), e "Camilo Visto por Freitas Fortuna Seu Amigo e Seu Irmão", de Adriano Coutinho Lanhoso, edição da Casa de Camilo (Famalicão, 1970), onde se transcreve o "Testamento" e a (controversa) "Declaração" de Freitas Fortuna, documentos estreitanente relacionados com C. C. B.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003