Guiomar Torresão
(1844-1898)

De seu nome completo Guiomar Delfina de Noronha Torresão, Guiomar Torresão, como assinava os seus trabalhos e ficou conhecida, teve uma juventude cheia de dificuldades, devido ao falecimento do pai, que, à altura, era director da alfândega da ilha de Maio (Cabo Verde). A viúva e a órfã regressaram ao continente em 1853. Para ajudar à subsistência da mãe (e das irmãs), Guiomar Torresão começou por dar lições de instrução primária e de língua francesa, até que se dedicou à literatura, distinguindo-se como jornalista e publicista. Colaborou em muitos jornais e publicou romances, impressões de viagem e peças de teatro, tendo traduzido inúmeras obras, de autores franceses em especial. Usou o pseudónimo "Delfim de Noronha".

Fundou (ou dirigiu) Evolução (1880?, só vimos dois números, por sinal sem datas de saída); Almanaque das Senhoras (1870), de periodicidade anual, que continuou a publicar-se sob a direcção da irmã, Felismina Torresão (depois da sua morte); Ribaltas e Gambiarras (1881), O Mundo Elegante, "mensageiro semanal ilustrado de modas, elegância e bom tom, dedicado às Senhoras Portuguesas e Brasileiras" (1887) e A Crónica (1896). Publicou as suas primícias em 1869: Uma Alma de Mulher, com prefácio de Júlio César Machado (tinha 22 anos e não 16 como costumam dizer os biógrafos), sendo o mais apreciado dos seus livros A Família Albergaria (1874), "romance histórico original".

Deve ter conhecido Camilo, a quem trata sempre por Mestre, por volta de 1870, visto que nesta data lhe escreveu Ana Plácido a prometer o envio de algum escrito "do Sr. Camilo". Efectivamente Camilo colaborou no Almanaque das Senhoras, por várias vezes, e nas Ribaltas e Gambiarras (artigos polémicos contra Alexandre da Conceição).

Guiomar Torresão dedicou a Camilo, o "incomparável prosador", o trecho "A valsa", de A Comédia do Amor; utilizou como epígrafes trechos de Camilo (v. o romancinho Celeste, em Rosas Pálidas, p. 17), tendo-se referido muitas vezes às produções que o mestre lhe oferecia (no Courrier de Lisbonne, no Diário Ilustrado, etc.). Mas prometeu escrever um artigo substancial sobre Camilo fora do âmbito banal da notícia jornalística: "Há muito que penso em escrever dos seus últimos livros; queria, porém, fazê-lo com escrupulosa atenção, com o devoto apreço que se deve ao lavor de um mestre.[...] Hei-de escrever, com muito medo; com o medo da incompetência, que sempre me anestesia, quando toco nas suas obras e as vejo inundarem-me do brilho, que me atrai, como uma cega borboleta, crestando-me as asas" (carta de 2-3-1883, existente na Casa-Museu de Camilo e registada no Camilo Homenageado com o n.° 344). Sabemos que quis teatralizar A Corja em 1881. O autor procurou dissuadi-la do projecto, dizendo que "ali não há unidade de acção". "No entanto se V. Ex.ª se sente com forças para o milagre, eu, vingado o intento, beatificá-la-ei na minha admiração, se é que já não está canonizada pelo culto com que sou" etc. (in Trechos Literários de Alexandre Herculano e Canas do Mestre Autor e de Outros Escritores Ilustres a Guiomar Torresão, p. 64. Carta de 10-4-1881).

A correspondência Camilo/Guiomar Torresão, conhecida e publicada, tem grande interesse, sobretudo para se avaliar, das relações entre os dois escritores, em que sobressai a insistência, por vezes implorativa, da protecção do mestre ("V. Ex.ª que sempre me tem auxiliado em todas as tentativas e me tem amparado com o seu braço amigo e protector") nas mais diversas situações: na agressão do actor Dinis Pinheiro, em plena rua (1887); nas dificuldades de edição, e até no valimento do romancista junto do imperador Pedro II [a favor da filha da ama de D. Pedro IV (1887)]. Também é verdade que Guiomar Torresão estava sempre atenta aos desgostos do romancista, enviando-lhe na altura as suas consolações: aquando do falecimento de Manuel Plácido (1877), do descarrilamento (1878), da entrada de Jorge Camilo Castelo Branco no Hospital do Conde de Ferreira (1886).

Camilo respondeu à carta de Guiomar sobre o desastre ferroviário com uma deliciosa epístola, que se transcreve: "Beijo as mãos de V. Ex.ª pela fineza dos seus cuidados com a minha esquisita existência. A morte, minha querida Senhora, de vez em quando dá-me um beijo dos da sua lavra, e retira-se. Há três anos que a tenho sentido de diversos feitios. Quando ela pôs a espádua ao comboio e o tombou, cuidei que era a sério. Não era. Depois disso, sofro nevralgias gerais muito mais lancinantes que os tombos que levei na carruagem. Faltava-me conhecer esta sensação" (op. cit., p. 65. Carta s/d, mas seguramente de 1878).
De sublinhar o seguinte: o valor histórico e literário das cartas (não só as recebidas de Camilo mas também as de outros escritores) não escapou à sagacidade da destinatária, que, ainda em vida, anunciou publicá-las em O Mundo Elegante, numa secção criada para o efeito, começando "com cartas dos grandes mortos", a que se seguiria "outras que possuo de grandes vivos, como V. Ex.ª". (Carta existente na Casa-Museu de Camilo, com o n.° 1246, mas não vem registada no Camilo Homenageado. Data: 13-8-1887). O empreendimento seria levado a cabo postumamente (1910) pela irmã Felismina Torresão.

Camilo prefaciou o livro de Guiomar Torresão No Teatro e na Sala.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003