José Barbosa e Silva
(1808-1882)

De uma família abastada de Viana do Castelo, com preponderância política na região, José Barbosa e Silva, o mais novo de 5 irmãos - Mateus, Luís, António e Maria Cândida -, notabilizou-se como político e, marginalmente, como poeta, romancista e jornalista. Deputado em mais de uma legislatura, sempre em representação do círculo da sua terra natal, adido à legação portuguesa em Paris e encarregado de negócios em Constantinopla (1862), cargo que não chegou a ocupar. Segundo o necrológico de A Aurora do Lima: "Era inabalável a sua firmeza nas crenças políticas; neste ponto, nem uma leviandade, nem um pecado venial pode macular a sua memória: de verdes anos se alistou nas fileiras do partido progressista, e nelas permaneceu sempre até ao último dia da sua vida" (n.° 1464, de 18-9-1865).

Foi, até morrer, um dos mais dedicados e compreensivos amigos de C. C. B., sempre de bolsa aberta para socorrer o escritor eminente. Conheceram-se - conta Camilo na Mulher Fatal - em 1849, quando Barbosa e Silva era aluno "do colégio da Formiga, nos arrabaldes do Porto [onde] estudava alemão" (10.ª ed., p. 31). A partir daí as suas relações nunca se interromperam. Logo no ano imediato (1850) os dois amigos conviveram em Lisboa, durante um largo período. Sendo Camilo redator de A Semana, nela publicou várias poesias de Barbosa e Silva. Depois, em 1853, redigindo A Cruz, estampou-lhe 2 poesias, com apreciações elogiosas. Em 1854 dedica-lhe Um Livro, cuja dedicatória será reformulada na 3.ª ed. (1865), depois da morte do amigo querido. Em 1855 prefaciou o único romance que José Barbosa e Silva editou: Viver para Sofrer, publicado em folhetins em O Nacional. O prefácio foi reimpresso por C. C. B. nos Esboços de Apreciações Literárias (v. Páginas quase Esquecidas, de A. C., I, pp. 59 e seg.).

C. C. B. empreende, em 1856, uma excursão a Braga, tendo por companheiros Luís Barbosa e Silva, Evaristo Basto e José Barbosa. Camilo fez a reportagem da viagem, que intitulou Peregrinação sobre a Face do Globo, publicada em A Verdade, O Clamor Púbico e A Aurora do Lima, acabando por ser incorporada, em 1857, nas Duas Horas de Leitura com o título definitivo Do Porto a Braga. Lembra-lo-á, em 1864, No Bom Jesus do Monte e, em 1887, na "Procissão dos Mortos", sem comentário. Por intermédio de José Barbosa e Silva, Camilo colaborou em A Aurora do Lima, tendo chefiado (?) a sua redação de 7 de abril a 28-5-1857. Para se avaliar de como Camilo o estimava, registe-se o facto de, em 1854, ao ser convidado para colaborar no Eco do Ocidente (concretamente: viajar por Espanha e escrever de lá as suas impressões) propôs-lhe para o acompanhar: "Não aceito sem que tu me digas que estás disposto a sair de Viana no próximo ano, e viajar comigo. Nem vou só, nem com outra pessoa" (in Correspondência de C.C.B., de A. C., I, p. 75).

Este acumular de gentilezas, por parte do romancista, era a grata e merecida retribuição dos muitos favores que recebera do amigo, ao longo de pacífica e fraternal convivência. De facto, José Barbosa e Silva teve papel influente no processo de candidatura de C. C. B. ao lugar de 2.° bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto. Em dada altura projetou criar em Viana do Castelo uma biblioteca municipal para anichar Camilo. Mas foi sobretudo no transe da fuga de Ana Plácido para a companhia do romancista que se manifestou em toda a sua grandeza a amistosa solidariedade de Barbosa e Silva, não apenas como confidente, mas através de sólido e oportuníssimo apoio moral e monetário. É verdade que, decerto modo, José Barbosa e Silva sentia-se envolvido na questão - a tomar dimensões catastróficas - devido às ligações íntimas que mantivera com a irmã de Ana, Antónia Plácido, então já casada com António Bernardo Ferreira.

A correspondência de Camilo para José Barbosa e Silva constitui um espólio precioso para o aclaramento de muitas passagens obscuras da biografia e bibliografia camilianas. O epistolário foi publicado na sua pureza e integridade, em 1984, por A. C. (v. Correspondência de C.C.B., l e II).

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003