José Cardoso Vieira de Castro
(1838-1872)

Descendente de uma família abastada, José Cardoso Vieira de Castro, de índole violenta e apaixonada, como reconheceram alguns dos seus condiscípulos, teve todas as condições para se tomar uma figura proeminente - e chegou a sê-lo - da sociedade portuguesa da segunda metade de oitocentos. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, foi deputado e teria conquistado posições cimeiras na política do País se uma fatalidade lhe não barrasse definitivamente a ascensão.

Ainda estudante envolveu-se no incidente Barjona de Freitas (1857), de que resultou o seu afastamento da Universidade por 2 anos. Autorizado a regressar, é riscado perpetuamente "por ter insultado o chefe dos archeiros" (1860). Nos conflitos académicos que se sucederam: lutou pela demissão do reitor ditatorial Basílio Alberto (1863) e solidarizou-se com os colegas, desta feita por "prepotências da corporação militar", incitando-os a abandonar Coimbra e a concentrarem-se no Porto (1864). Neste decurso de tempo revelou notáveis qualidades de orador, que seriam confirmadas no Parlamento (1865). E agraciado com a comenda de Carlos III, de Espanha, e admitido como sócio na Academia Real das Ciências de Lisboa (1866).

Embarca para o Brasil (1866) com o confessado objectivo de casar com herdeira rica. Fez-se acompanhar de uma edição de 10.000 exemplares dos seus Discursos Parlamentares, publicados nesse ano, que pretendia vender lá para resgatar a empenhada Casa do Ermo, pertença da família. Acabou por oferecê-los, a título beneficente a maior parte. Foi recebido com honras invulgares, inclusive pelo imperador, que o condecoraria com o grau de cavaleiro da Ordem da Rosa (in Diário de Notícias, n.º 1038, de 1-7-1868). Privou com os mais altos valores da inteligência brasileira: Machado de Assis entre muitos. Diz-se que a abertura generosa de todas as portas se devia, em partes iguais, ao seu talento e às ligações com a Maçonaria. O entusiasmo era tão generalizado e de tal ordem que os comerciantes portugueses do Rio de Janeiro lhe ofereceram uma coroa de ouro, "avaliada em quatro contos de réis". Os extraordinários êxitos de Vieira de Castro no Brasil encontraram eco na imprensa portuguesa da metrópole (v. por ex.: Gazeta de Portugal, n° 1220, de 18-12-1866, e a Revolução de Setembro, n.°7476, de 3-5-1867).

É verdade que já estava noivo da filha do comendador António Gonçalves Guimarães, homem riquíssimo, director do Banco do Brasil e do Banco Rural e Hipotecário. A menina que se apaixonara pelo forasteiro tinha 15 anos e chamava-se Claudina Adelaide Guimarães. O comendador sentia-se orgulhoso por a filha se casar com um seu patrício (era natural de Fafe). Realizou-se o casamento (1867) e os noivos partiram para uma dilatada viagem de núpcias pelos Estados Unidos da América e Europa.

Depois de uma estada no Porto, instalaram-se em Lisboa, na Rua das Flores, onde recebiam os amigos: Ramalho Ortigão, António Rodrigues Sampaio e, entre outros, um sujeito chamado José Maria de Almeida Garrett, conhecido marialva de tenebrosa crónica (a imprensa da época registou alguns dos seus escandalosos desatinos, acrescentando que era sobrinho do imortal Garrett, "mas indigno do seu nome").

José Maria torna-se amante de Claudina. Vieira de Castro descobre o adultério e assassina a esposa (9-5-1870), entregando-se depois à justiça. Julgado, foi condenado a 10 anos de degredo, agravados para 15, a despeito da defesa brilhante do Dr. Jaime Constantino de Freitas Moniz e do apoio de alguns jornais. Partiu para Angola em 5-9-1871, acompanhado do morgado de Pereira, António José Pereira Coutinho, com o fim de fundarem e explorarem uma empresa mercantil. Faleceu em Luanda, "vítima de uma febre fulminante" (5-10-1872).

Publicou, além dos já referidos Discursos Parlamentares, Uma Página da Universidade (1858); A República (1868), dedicada "As Classes Operárias/Obreiras futuras da Democracia Portuguesa" (na 2.ª ed., afora a dedicatória, idêntica à 1.ª); Colónias (1871), com um prefácio ("Duas Palavras do Editor") de Camilo. Fundou em Coimbra O Ateneu, com Camilo e António Vitorino da Mota, tendo colaborado em vários jornais.

Camilo Castelo Branco foi o mais indefectível amigo de José Cardoso Vieira de Castro, nas horas de glória e felicidade como nas de tristeza e martírio. Tinham entre si uma diferença de 13 anos e, talvez por isso, amaram-se como irmãos, havendo recíprocas condescendências para os pecados de cada um (pequenos e grandes). Conheceram-se em 1857, segundo informa Camilo na introdução à Correspondência Epistolar (1874): "Foi na Estrela do Norte que eu falei com Vieira de Castro, em 1857, quando ele recolhia riscado da Universidade" (op. cit., p. 57, da 5.ª ed. de 1968). Quase logo a seguir dá-se o processo de adultério contra Ana Plácido, e o amigo sai em defesa do amigo. Publicou "Camilo Castelo Branco (Notícia da sua Vida e Obras)" (1ª ed., 1861 e 2.ª ed., 1863) no sentido de pressionar os membros do tribunal e a opinião pública, e a que o romancista se referirá na Correspondência Epistolar: "A história mais óbvia deste livro é a amizade indulgente, o valor desassombrado duma opinião, o afecto veemente descativo de respeito, e todo embevecido no infortúnio de um amigo" (op. cit., I, pp. 61-62, da 5.ª ed. de 1968). Neste lance de angústia, em que o romancista andava foragido de terra em terra, aterrado com a perseguição dos esbirros, acolheu-se na Quinta do Ermo, como recordará nas Memórias do Cárcere (1862). Mas já antes, em 1859, auxiliara o amigo, na passagem de Ana Plácido por Coimbra a caminho de Lisboa, onde Camilo já se encontrava. "Eu imagino quantos favores terás prestado à minha A. Augusta. E possível que ela tenha dinheiro insuficiente; presta-lhe o que for necessário. [...] Apressa a vinda dela; e vou esperá-la ao Carregado, se não piorar" (in Cartas de Camilo a Vieira de Castro, p. 14).

Depois do desfecho favorável do processo (1861) estreitam-se ainda mais as relações entre os dois. Vieira de Castro visitará com frequência o casal em São Miguel de Ceide. Devia estar presente, em 1866, na recepção prestada a Castilho na Casa Amarela. Chegou mais tarde para poder gozar a convivência dos amigos sem a presença de intrusos. No entanto, o seu nome também ficou gravado na pedra evocativa da célebre efeméride como discípulo do Primeiro Poeta Português. Alguns biógrafos levantaram a suspeita de ter existido relações ilícitas entre a anfitriã e o constante visitante (antes da viagem ao Brasil), que as cartas do tribuno para Ana Plácido podem justificar, assim como a correspondência de Henriqueta Couceiro, repudiada amante do fogoso tribuno, para Ana.

Em 1868, quando Vieira de Castro preparava a sua reentrada na vida política, candidatando-se a deputado (ou por Lisboa ou pelo Porto), projecta o lançamento de um quotidiano, a competir com o Diário de Notícias (a 10 réis e de venda na rua), com a cooperação de Camilo, Manuel Roussado e Miguel de Bulhões (v. O Jornal de Notícias, n.°147, de 2-7-1868). A iniciativa fracassou e, entretanto, desencadeia-se a tragédia da Rua das Flores, que levará o tribuno ao degredo.

Camilo Castelo Branco situa-se na primeira linha dos seus mais esforçados defensores: visitando-o no Limoeiro e escrevendo a seu respeito, na mira de o desculpabilizar da premeditação do crime. Publicou: O Condenado (1871), drama representado em Lisboa, Porto, Braga e Coimbra; Voltareis, ó Cristo? (1871); Livro de Consolação (1872), e, depois do seu falecimento, Correspondência Epistolar, em 2 vols. (1874).

Conhecida em Lisboa a morte do tribuno, António Manuel Vieira de Castro ofereceu a Camilo, "como prova de apreço e reconhecimento, a espada, espadim, chapéu e colar, insígnias da Academia Real das Ciências que pertenceram ao seu desditoso irmão, o Dr. José Cardoso Vieira de Castro" (in Diário Ilustrado, n.°152, de 29-11-1872). No ano seguinte os amigos brasileiros de Vieira de Castro enviaram ao romancista "uma pena de oiro cravejada de brilhantes" (in O Brasil, n.°10, de 5-4-1873).

Para consagrar de forma duradoira a memória do amigo querido, Camilo pensou em erigir-lhe em Ceide um monumento: "uma coluna tendo a base de granito e na parte superior o busto em bronze do falecido". As despesas seriam custeadas pelo "produto de dois volumes que vai publicar contendo a correspondência inédita [que ambos trocaram] durante o tempo da sua prisão e do seu degredo", tendo a seguinte legenda: "Á memória de José Cardoso Vieira de Castro, que aceitou o degredo e a morte, em desafronta da sua honra de marido" (v., por ex., O Primeiro de Janeiro, n.° 87, de 15-4-1873).

O prefácio de Camilo ao folheto Colónias, escrito por Vieira de Castro no Limoeiro, está recolhido nas Páginas quase Esquecidas, de A. C. (I, pp. 199-203). Consultar, do mesmo autor, a "Nota Preliminar" à Correspondência Epistolar (tomo I, da 5.ª ed. de 1968) e também, apesar de rancorosamente parcial, o livro de Gomes Monteiro, Vieira de Castro e a Sua Tragédia, Lisboa, 1932.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003