José Gomes Monteiro
(1807-1879)

Natural do Porto, José Gomes Monteiro, considerado um erudito e bibliófilo, era figura de prestígio na sua cidade natal: exerceu lugares públicos (recebedor da Fazenda) e foi gerente (por fim proprietário) da casa editora Viúva Moré. Emigrou em 1828, quando frequentava a Universidade de Coimbra, devido às suas convicções liberais. Esteve em Londres e depois em Hamburgo, onde se estabeleceu, associado ao também portuense José Ribeiro dos Santos, com a firma Santos e Monteiro. De parceria com Barreto Feio publicou as Obras de Gil Vicente e de Camões. De regresso à pátria, por volta de 1835, participou de actividades artísticas como actor amador, no célebre teatro de António Bernardo Ferreira (o n°2), que criara em sua própria casa. No elenco, entre outras personalidades que viriam a conquistar boas posições na sociedade portuense, figuravam seus irmãos Henrique José, Alexandre, Joaquim José e Carlos Francisco Monteiro. Publicou em Portugal: Ecos da Lira Teutónica, ou tradução de algumas poesias dos poetas mais populares da Alemanha (1848); Carta ao llm.° Sr. Tomás Norton, sobre a situação da ilha de Vénus, e em defesa de Camões, contra uma arguição, que na sua obra intitulada "Cosmos", lhe faz o Sr. Alexandre Humboldt (1849), e Os Críticos do "Fausto" do Sr. Visconde de Castilho (1873), que representa a sua intervenção na turbulenta Questão Faustiana. Diz-se ter deixado inéditos importantes, entre eles o muito apregoado estudo crítico sobre o Amadis de Gaula.

As relações de Camilo com José Comes Monteiro passaram por várias fases: contestação, reconciliação e rompimento. Na 1.ª fase Camilo manifestou a sua acrimónia para com o erudito escritor, metendo a ridículo a sua sabedoria. Em 1849, a propósito da Carta a Tomás Norton, com o pseudónimo "Anastácio das Lombrigas": "A Carta está bem escrita, e eu devo dizer alguma cousa sobre o facto. Nas minhas viagens últimas da Terra Santa, avistei uma ilha no mar Cáspio, mandei ao arreeiro que conduzisse a liteira para ali, e entrei na ilha. Estava deserta! [...] Mal me apeio, descobri uma bota de montar de Vasco da Gama, entre a floresta, e perto dali as cascas dos mexilhões que ele e a Vénus comeram! Fiquem certos que a ilha não é da invenção de Camões: é exacto, que lá estiveram os nautas portugueses na sua volta de Marrocos" (in Jornal do Povo, de 6 de Março; reproduzido em Dispersos, I, p. 66). Em 1856, sob o pseudónimo de "João Júnior", refere-se ao Amadis, depois de considerar o Gandra e o José Comes Monteiro "os dous tesoureiros das maiores patranhas que escaparam ao Bernardo de Brito e ao Castanheda": "Este José Comes Monteiro, enquanto eu faço escavações num carroção, ingranza ele um manuscrito de 600 pp., em que promete convencer-nos de que o Amadis de Gaula, romance de cavalarias, que não vale mais que as sete partidas de D. Pedro, foi primitivamente escrito em espanhol, e não sei que mais" (in A Aurora do Lima, de 28 de Outubro; coligido em Dispersos, II, pp. 585-586). No mesmo ano, a propósito da Lira Teutónica, depois de bordoada desenfreada, finaliza:

"Em resumo: o Sr. José Comes Monteiro é um escritor que não pode ser comparado aos menos de medíocres" (in Mundo Elegante, n.° 13, de 28 de Maio; artigo assinado com o seu nome, reproduzido em Dispersos, III, p. 340). Em 1861, no período de transição (passaria em breve a ser editado pela Viúva Moré), ao falar das celebridades do Porto:

"Daquela fileira, já tão rareada, era José Comes Monteiro, o escritor erudito, que não crê na obrigação em que está o talento para com os seus conterrâneos" (in Revolução de Setembro de 6 de Julho; compilado em Dispersos, III, p. 430). Em 1864, na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil (II vol., pp. 229-234), consagra o nome de José Comes Monteiro como erudito e estudioso de Camões e amigo de Garrett. Fala das relações de Teófilo ainda simpaticamente, com o sábio: "Teófilo Braga, o brilhante poeta das Visões dos Tempos, está muito ligado de coração com José Gomes Monteiro. Conversam largas horas. O erudito que está ao par de todas as literaturas, aconselha, encaminha, censura, ou aplaude as donosas e arrojadas concepções do moço" (in Esboços de Apreciações Literárias, p. 228, da 5.ª ed. de 1869). Nesse mesmo ano dedica-lhe o Amor de Salvação. No decurso da Questão Faustiana toma a defesa do editor, que dera um conto de réis pela "patacoada" da tradução do Fausto: artigo no Comércio do Porto (n.° 149, de 4-7-1872), e de elogio aos Críticos do "Fausto" do Sr. Visconde de Castilho, em O Primeiro de .Janeiro (n°93, de 22-4-1873): "Concorrem no Sr. José Gomes Monteiro todos os predicados essenciais à crítica prestante. / Vasta leitura, conhecimento dos idiomas em que hoje em dia lustram superiormente as letras amenas, claro discernimento, [...] juízo desapaixonado" etc. (in Dispersos, III, p. 496). Finalmente, em 1874 dá-se o rompimento no decurso da polémica com Anselmo Evaristo de Morais Sarmento. A uma insinuação do contendor, Camilo apelou para o testemunho de José Gomes Monteiro, que não foi satisfatório. A reacção foi imediata (requisitado a depor, José Gomes Monteiro não respondeu convincentemente, bem pelo contrário): "Apraz-me grandemente o público testemunho desta carta, no momento em que as minhas relações sociais e comerciais com o Sr. José Gomes Monteiro se desatam" (in Noites de Insónia, n.°8, de 1874; cf. Polémicas de Camilo, de A. C., ed. Livros Horizonte, V, p, 181- polémica com Anselmo Evaristo de Morais Sarmento). Nessa altura já Camilo estabelecera compromissos editoriais com Ernesto Chardron. Manuel Pinheiro Chagas escreveria em O Ocidente, aquando do falecimento de J. G. M.: "Quem, senão ele, editaria o primeiro livro do Sr. Teófilo Braga? Quem ousaria empreender a publicação da Morte de D. João de Guerra Junqueiro?"

Uma achega quanto aos motivos (só políticos?) que forçaram José Gomes Monteiro a emigrar em 1828. Por coincidência foi nesse ano que ocorreu o assassinato de dois lentes de Coimbra, que iam a Lisboa, em deputação, saudar D. Miguel. Os conjurados, todos estudantes, pertenciam ao Clube Republicano Escolástico e ao grupo secreto designado por Divodignos ou Divódis. Eram em número de 13. Depois do atentado 10 foram presos e mortos. Escaparam 3. Camilo tratou deste caso em 1868 no romance Retrato de Ricardina, registando o nome dos estudantes implicados no atentado. O 13.º é identificado como sendo Bernardo Moniz, protagonista da novela. Ficam inominados 2 dos conjurados. As informações sobre o evento foram-lhe dadas por alguém que é classificado por "um douto literato" e "o meu douto amigo". Só na 2.ª ed. (1887) revela quem foi o informador, acrescentando à nota: "(era José Gomes Monteiro, já falecido)" (op. cit., pp. 127-128, da 12.ª ed. de 1967). Fica-se com a impressão de que o romancista conhecia o nome dos fugitivos não identificados:

"Faltavam dois, cujos nomes a tradição conserva, e o melindre pede que não se escrevam." (Ibidem, p. 128). Um deles era padre (José Gomes Monteiro frequentava, nessa época, os cursos de Leis e Cânones): "Não sabemos se o divulgar-lhe o nome faz implicância ao cuidado com o que o padre de 1828 o esconde. Na incerteza, respeite-se o arrependimento" (Ibidem, p. 145). Camilo conhecia, como fica patente, o nome dos fugitivos. Quem eram? Seria ousadia, sem aprofundar a investigação (caso fosse possível), sugerir nomes. Não resistimos, no entanto, a transcrever um trecho - por sinal bastante comprometedor - da carta de Camilo a Castilho: "Estive ontem com o nosso Gomes Monteiro. Está bom; mas algum tanto assustado com as infâmias que vão sair da imprensa do Coelho. Vão dizer que o Monteiro é um dos assassinos dos lentes em 1828." (Trata-se de Adolfo Coelho, um dos interventores na Questão Faustiana; in Correspondência de C. C. B., de A. C., ed. Livros Horizonte, IV, p. 107; carta de 10-6-1873).

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003