José Teixeira da Silva
(1818-1875)

Descendente de família de salteadores, José Teixeira da Silva, também conhecido por José Teixeira do Telhado ou simplesmente José do Telhado (por ter nascido na localidade deste nome, em Penafiel), deixou uma crónica rocambolesca de assaltos e mortes, de mistura com gestos de magnanimidade para com os pobres. Diz-se que por desgosto de amores assentou praça nos Lanceiros da Rainha. Tendo participado em várias campanhas, denotou bravura e porte irrepreensível. Foi ordenança do visconde de Sá da Bandeira, salvando-lhe a vida em Valpaços (1846), pelo que foi condecorado com a Torre e Espada. Nessa altura estava já casado com Ana, sua prima e seu primeiro amor, de quem teve numerosa prole.

Passou à vida civil depois da Convenção de Gramido (1847). Dois anos depois trilhava a vereda do crime, ao ingressar na quadrilha do irmão, Joaquim do Telhado, que breve passou a chefiar. Para escapar à perseguição das autoridades, emigrou para o Brasil, demorando pouco por lá (19 meses). Regressou em 1851, saqueando a residência do Dr. António Fabrício Lopes Monteiro. A partir daí sucedem-se os assaltos às casas ricas da região nortenha. O seu último crime foi a morte de um companheiro, José Pequeno, que o traíra. Foi preso, com parte dos seus parceiros, conforme relato da imprensa: "Por notícia telegráfica que do Porto nos envia o nosso correspondente, consta que ontem 31 à 1 hora da tarde foi preso o facinoroso José do Telhado" (in Jornal do Comércio, n.° 1654, de 1-4-1859).

Encarcerado, por fim, na Cadeia da Relação do Porto, aí conheceu o escritor Camilo Castelo Branco, de quem, segundo a tradição, se fez guarda-costas. Certo é que foi seu defensor - "gratuitamente" - o advogado e amigo do romancista Dr. Marcelino de Matos. Condenado "a degredo perpétuo, com trabalhos públicos", foi parar a Angola. A imprensa continuou a divulgar as suas novas façanhas em Africa. Lê-se em O Nacional (n.° 157, de 15-7-1870): "O degredado José do Telhado, segundo escreveu de Angola ao Diário de Notícias, tem praticado grandes atrocidades no sertão de Matianvo".

Camilo dedicou-lhe um capítulo inteiro das Memórias do Cárcere (capítulo XXVI, II, pp. 82-107, da 8ª ed. de 1966), que é de certo modo a sua biografia - resultado das conversas que tivera na prisão com o malfeitor (mais tarde se fará uma edição em separado com o título Vida do José do Telhado). Na 2.ª edição das Memórias (1864), o autor acrescentou uma nota, que se transcreve: "Os jornais têm contado façanhas de José Teixeira do Telhado contra a negraria. O comércio de África deve-lhe muito, e espera muito mais daquele braço de ferro, e sede de sangue. Os pretos é que pagam os agravos, que os brancos lhe fizeram cá. Se José Teixeira for esperto, pode morrer, pelo menos, rei daqueles sítios." Morreu na miséria.

Todos os biógrafos referem a amizade Camilo/José do Telhado na Relação do Porto. A vida aventurosa do bandoleiro deu azo a uma bibliografia vasta, sobressaindo a folhetaria de cordel. Da opereta de João França, sobre o mesmo tema, foi extraído um filme.

Cons. a Camiliana, de Adelino Felgueiras, onde a página 494 vem um registo sucinto de alguma bibliografia sobre José do Telhado, "com textos de outros autores, ou com alteração na transcrição do texto de Camilo".

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003