Júlio César Machado
(1835-1890)

Jornalista dos mais brilhantes da sua geração, Júlio César Machado notabilizou-se como folhetinista e cronista da Lisboa da segunda metade do século XIX. Estreou-se nas letras aos 14 anos, publicando as primícias do seu talento no semanário de Lisboa A Assembleia Literária: uma poesia (no n. ° 12, de 20-10-1849) e a tradução de O Cura, de Lamartine (no n.º17, de 1-12-1849). Além da produção jornalística abundante (colaborador de O Doze de Agosto, Revolução de Setembro, Diário de Notícias, etc.), deixou vasta bibliografia, constituída por romances (Cláudio, 1852); contos (Contos ao Luar, 1861); notas de viagem (Recordações de Paris e Londres, 1863, Em Espanha, 1865, Do Chiado a Veneza, 1867); teatro (peças, originais e traduzidas, várias biografias de artistas). Foi secretário do Instituto Industrial de Lisboa e fez parte do grupo de 24 personalidades que num jantar-convívio decidiram fundar a Associação de Homens de Letras (1870).

Júlio César Machado conheceu Camilo em Lisboa, em 1850, acontecimento que os 2 escritores não se cansarão de recordar. Camilo nos Esboços de Apreciações Literárias: "Este Júlio César Machado, que aí vês tão medrado no folhetim e no romance, conheci-o, há treze anos com todas as meninices de espírito e rosto. [Júlio tinha 15 anos.] Não sei como ele foi dar comigo a escrever o Anátema num cubículo da Rua do Oiro, O que me lembra é que me saiu muito engraçado o Machadinho, e fiquei admirado, quando me ele disse que tinha um romance em começo, e muitos romances embrionários. Parece-me que o romance começado se chamava "Estrela d'alva". Bem escolhido título para a alvorada de um esplêndido dia! / Mandei publicar na Semana, jornal literário, o começado romance, cuidando que ele se deteria a compor e recompor a continuação do romance, por algumas semanas" (p. 186, da 5.ª ed. de 1969; publicado originalmente na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, pp. 140-149, na série "Cartas a Ernesto Biester"). Por seu turno Júlio César refere-se ao camarada de letras muitas vezes. A propósito do Sangue: "Compreendem que não me vou divertir agora em os entreter com os méritos de Camilo Castelo Branco; seria ingenuidade demais. Não é nenhuma violeta literária que a gente tenha de ir procurar por baixo da ervinha de S. Tiago, é um escritor de raça a quem o leitor fica admirando mais de cada livro novo que lê dele" (in Revolução de Setembro, n°7775, de 5-5-1868).

Júlio César Machado foi dos raros intelectuais que visitou Camilo quando estava detido na Cadeia da Relação do Porto, inculpado de adultério, de que deixou memória nas Cenas da Minha Terra:

"Camilo estava no quarto em que gemeu o duque da Terceira durante todo o tempo da junta, e de onde o Gravito marchou para a forca em 1829; quarto, ainda assim, melhor do que eu esperava, quando subi as escadas da cadeia. Uns livros numa estante, alguns papéis sobre uma mesa de escrita, nenhum jornal [...]. / Esperava vê-lo abatido e prostrado; nada disso: encontrei-o triste apenas, mas resignado e sereno. Abraçámo-nos longamente. Mil razões d'estima me prendiam a Camilo há muitos anos" (op. cit., de 1862, pp. 161-162). O romancista recordou também essa visita nas Memórias do Cárcere: "[…] o bom Machadinho, digo, vindo ao Porto, ingrato seria se passasse distraído ao lado daqueles muros pardos, onde o seu amigo de doze anos estava conversando as musas e os facínoras" (I, p. 226, da 8.° ed. de 1966). Em verdade, "o bom Machadinho" fora-lhe oferecer todo o dinheiro que acabara de receber do seu último trabalho. Em 1863 prefaciou carinhosamente o livro de estreia de Ana Plácido, Luz Coada por Ferros.

Foi uma amizade que se consolidou com o escoar dos anos e se interrompeu abruptamente: Júlio César Machado matou-se em 12-1-1890, devido ao suicídio do filho (15-11-1889).

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003