Manuel Azevedo Caniço
(1855-1917)

Natural do lugar do Monte, da freguesia de São Miguel de Ceide, Manuel Azevedo Caniço (ou Carriço) nasceu em 10-9-1855 e terá morrido - ao que se supõe - por volta de 1917 (informações colhidas a nosso pedido pelo Sr. José Cardoso, chefe de Redacção do Boletim da Casa de Camilo). João Paulo Freire, em A Casa de Camilo (recolha de artigos escritos em 1919), ao falar de Manuel Carriço informa "que morreu o ano passado". Em 1918, portanto (op. cit., p. 21). Sabemos que em 1890 se deu como casado e alfaiate de profissão.

Foi criado de confiança da Casa Amarela, em Ceide. Alberto Pimentel, ao visitar a casa do romancista em Agosto de 1901, reproduz aos seus anfitriões as palavras ouvidas a Camilo: "Manuel Caniço é a única pessoa que manda na minha casa. Assumiu a ditadura e não sabe governar doutro modo: dava um bom ministro… constitucional" (in Os Netos de Camilo, p. 28). Diz-se que interveio, em 1881, no rapto da "Diamante Negro", Maria Isabel da Costa Macedo, a futura esposa de Nuno Plácido Castelo Branco. Supomos que terá servido de guarda a Jorge Camilo Castelo Branco nos períodos de crises graves de agressividade e acompanhou muitas vezes a família quando das deslocações estivais à Foz do Douro e Póvoa do Varzim.

Despediu-se do serviço uma vez, talvez duas: em 1884 e 1887 (?): 1 - Se bem interpretamos a carta de Camilo a Eduardo da Costa Santos: "Sentia-me com saúde bastante para ir hoje ao Porto; mas o único criado que havia nesta casa, o Manuel, foi-se embora ontem" (carta de 7-4-1884).

2- Dizendo-se que Caniço estivera no Brasil, procurámos investigar neste sentido: a) detectámos a partida para o Rio de Janeiro de Manuel Ribeiro Caniço (in Jornal do Comércio, n.° 10033, de 13-5-1887) e sabemos que, aquando da 2.ª viagem de Nuno ao Brasil, a imprensa anuncia o seu regresso acompanhado de um criado (in O Primeiro de Janeiro, n.° 134, de 1-6-1887). Seria o Manuel Caniço (ou Carriço)?

Seja como for, Caniço (ou Carriço) voltou ao serviço da Casa Amarela. Julgamos que acompanhou Camilo e Ana Plácido a Lisboa (1888-1889). Numa carta a Freitas Fortuna, de 3-9-1889, ao falar-lhe do original dos Sonetos Impressionistas (que viria a ter o título definitivo Nas Trevas), Ana Plácido informa: "O livro e manuscrito só ontem à noite foram ao correio, porque estamos muito longe de tudo e o Manuel está sempre às ordens do Camilo" (in Dois Anos de Agonia, p. 119).

Quando aconteceu o lamentável processo criminal contra o Dr. Urbino de Freitas, Ana Plácido escreve ao irmão (Freitas Fortuna) oferecendo-lhe o refúgio de Ceide como local de trânsito: viria "escondidamente para aqui o Dr., porque daqui seria muito fácil internar-se em Espanha e de lá trataria de se defender". E acrescenta: "Já tinha mesmo pensado num homem seguro para o acompanhar" (op. cit., p. 164). O "homem seguro" seria o Manuel Azevedo Caniço?

Manifesta a sua fidelidade à casa e ao amo, mais uma vez, aquando do suicídio: acompanha o corpo do romancista de Ceide ao Porto, e do Porto ao cemitério, numa dedicação que a imprensa registou e enalteceu, considerando-o "mais um íntimo de Camilo do que servo". Foi uma das pessoas ouvidas no processo instaurado pelas autoridades no sentido de averiguar se efectivamente se tratara de suicídio.

Depois da reconstrução da fatídica Casa Amarela, destruída pelo incêndio de 1915, sublinhe-se que o primeiro "guarda da casa reedificada [foi Manuel Caniço], antigo criado de Camilo, que chorou o seu bom amo até à morte, e pouco tempo viveu na casa nova" (in Camilo Homenageado, p. XX, do "Relatório da Comissão de Homenagem Póstuma ao Grande Escritor Camilo Castelo Branco").

Dá que pensar a história do incêndio de 1915, contada em 1984 por José Carlos de Vilhena em artigo no Diário de Notícias (24 de Maio).

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003