Manuel Negrão
(1830-1898)

De ascendência fidalga, "filho do desembargador Pereira Negrão e neto do célebre e erudito chanceler-mor do Reino, Manuel Nicolau Esteves Negrão, co-fundador da Arcádia Ulissiponense", Manuel Negrão, de seu nome completo Manuel Nicolau Osório Pereira Negrão, foi dos amigos mais dedicados de Camilo, desde os longínquos tempos da boémia descuidada (1847). Mantendo uma convivência quotidiana até ao momento em que Negrão se retirou definitivamente para o seu solar de Mosteirô, a amizade, todavia, nunca se interrompeu, continuando através de correspondência epistolar (parte infeIizmente perdida). Camilo recorda as façanhas comuns No Bom Jesus do Monte (cap. "1854"): "Ao abrir a manhã do próximo dia, como passasse Manuel Negrão à minha porta, caminho de Coimbra, fui com ele por esse mundo fora. De volta de Coimbra, mudei a minha residência para o Porto" (p. 81, da ed. da Lello, s/d.). Em 1857 começou Camilo a publicar em A Aurora do Lima, com o pseudónimo de "João Júnior", o romance Aventuras de Um Surdo (n.ºs 227-229, de 1, 3 e 6 de Julho de 1857). A abrupta interrupção do romance, que ficou inconcluso, explica-a Camilo em carta a José Barbosa e Silva: "A respeito, porém, da suspensão do pequeno romance, começado na Aurora, há uma história singular. Manuel Negrão contou-me um episódio passado há pouco com ele, e uma mulher nossa conhecida. Autorizou-me a escrevê-lo com reservas, mas com severidade para os vícios dela. Depois é ele o que me vem pedir que não continue, por que a Aurora lhe está fazendo grave mal [in Correspondência de C.C.B., de A. C., ed. Livros Horizonte, I, p. 173; carta (de 14-7-1857)]. Manuel Negrão foi dos amigos verdadeiros que visitaram o escritor quando era "hóspede" forçado da Cadeia da Relação do Porto, como Camilo registou nas Memórias do Cárcere: "Triste seria o despertar, se eu não visse ali, palpável e real, Manuel Negrão. Descera das montanhas onde vive, e contou-me a história de sua ditosa obscuridade. Eu contei-lhe as delicias da minha existência, exposta sobre o tablado das praças às vaias das multidões. [...] Este era o amigo que eu não quisera ter visto no cárcere. Este só podia abrir-me o livro da vida, na página feliz" (op. cit., I, p. 230, da 8.ª ed. de 1966).

Manuel Negrão fora um dos informadores de Camilo para a elaboração da Maria da Fonte, onde o escritor bosqueja traços biográficos notáveis do companheiro: "Ele [Negrão] ainda não tinha dezasseis anos quando cingiu uma espada, e se alistou sob a bandeira treda do general escocês. Levaram-no para ali as tradições, o apelido heráldico, a raça? Não: ele nunca me disse os nomes de seus avós, nem se julgava obrigado a dar o sangue por uns preconceitos muito alheios da sua índole. Manuel Negrão seguira o estandarte dos Realistas para experimentar a impressão dos perigos extraordinários. / Se Mac - Donnell morresse como um bravo no campo da batalha o meu querido amigo teria morrido ao seu lado" (op. cit., p. 144, da ed. da Lello de 1961). No Inverno de 1885, para recordar os tempos da juventude, Manuel Negrão ausenta-se de Mosteirô uns dias (onde "vive principescamente", nas palavras de Alves Mendes) para visitar Camilo e a família em São Miguel de Seide. A correspondência entre os 2 velhos amigos devia ser um espólio avultado e do maior interesse. As cartas de Camilo perderam-se, conforme nos informou o Dr. Joaquim Alberto Cunha de Andrade: "Como sabe, há anos houve um grande incêndio no Solar de Mosteirô, residência da Família Negrão, e ardeu totalmente o recheio, no qual estavam muitas dezenas de cartas de Camilo para Negrão, que eram desconhecidas. Se não fora isso, eu teria agora oportunidade de lhe oferecer excelente matéria" (Carta de 28-3- 1979). As cartas que restam de Negrão para o escritor encontram-se na Casa-Museu de Camilo. Leia-se o livro Cartas de Camilo a Manuel Negrão, de Joaquim Cunha de Andrade (Porto, 1987).

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003