Ricardo Jorge
(1858-1939)

Célebre médico higienista, conhecido apenas por Ricardo Jorge, Ricardo de Almeida Jorge exerceu uma influência decisiva na política sanitária do País. Reitor do Liceu do Porto, professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, transitando para a de Lisboa, fundou o famoso Instituto Central de Higiene (dec. de 28-12-1899), de que foi director e a que deu o seu nome após a aposentação. Escritor e jornalista, deixou uma importante bibliografia, não só no domínio da ciência mas também no da literatura, de que se destacam: Higiene Social (1884), La peste bubonique du Porto (1899) e os estudos El Greco (1912), Ramalho (1915), Contra Um Plágio do Prof. Teófilo Braga (1917), Francisco Rodrigues Lobo (1920) e Camilo e António Aires, Seguido do Poema "As Comendas" (1925). Fundou a Revista Cientifica (1882) e os Anais de Saúde Pública do Reino (1905), tendo colaborado em numerosos jornais.

No regresso de uma viagem de estudo ao estrangeiro (1884) relaciona-se com Camilo Castelo Branco (após as 4 famosas conferências sobre higiene social), tomando-se íntimo do romancista, como seu médico e seu amigo. Na opinião de Maximiano Lemos, condiscípulo e colega do mestre higienista: "[…] o médico que mais parecia talhado para prestar cuidados a Camilo e para se impor ao seu espírito doente e torturado" era Ricardo Jorge (in Camilo e os Médicos, 1.ª ed., cap. xxxv, que é excelente fonte de informações sobre as relações entre os 2 amigos). De facto, o doente rebelde (a tratamentos regulares) aceitou a autoridade do seu novo clínico, em quem depositava uma grande confiança. Os epistolários Freitas Fortuna e Eduardo da Costa Santos, sem esquecer a correspondência trocada entre Camilo e Ricardo Jorge, reflectem esse clima de respeito e amizade. Dois factos testemunham o que afirmamos: foi Ricardo Jorge quem, em 1886, promoveu a entrada de Jorge Camilo Castelo Branco no Hospital de Alienados do Conde Ferreira (e o acompanhou com Eduardo da Costa Santos), escrevendo para o efeito um relatório a justificar a sua admissão: "O abaixo assinado atesta e jura que Jorge Castelo Branco, idade 23 anos, solteiro, filho de D. Ana Plácido, sofre de alienação mental, pela qual julga ser necessária a sua internação num hospital apropriado" (in Camilo e os Médicos, onde é reproduzido integralmente o atestado de Ricardo Jorge, a pp. 515-516 da 1. ª ed.). Segundo facto: Ricardo Jorge, amigo recente do romancista, foi dos poucos convidados a assistir ao casamento de Camilo com Ana Plácido, realizado na noite de 9-3-1888.

Em 1885, Camilo dedicou à Higiene Social uma apreciação elogiosa, nos Serões de S. Miguel de Ceide, como título "Questões de vida e morte" (1.° artigo da série no 1.° fascículo e o 2.° no 4.°, cf. ed. de 1928, pp. 35 e seg. do 1.º tomo e pp. 21 e seg. do 2°). A ideia inicial era publicar os artigos no Primeiro de Janeiro e coligi-los em seguida num folheto como homenagem ao homem de ciência. Camilo chegou a apresentar o projecto a Eduardo da Costa Santos, como se vê do traslado de uma carta (ao que supomos inédita): "O opúsculo poderia dar lugar a uma fineza do meu editor ao Ricardo Jorge dedicando-lhe com uma carta sua: eu não o poderia fazer directamente porque um elogio não se oferece a um rapaz modesto como ele pelo próprio autor do elogio. Não está isto admitido em letras" (v. "Comentário" à carta n.°104 da Correspondência de C. C. B., de A. C., ed. Livros Horizonte, VI, p. 134). Desistindo por fim da ideia publicou os artigos nos Serões.

Ricardo Jorge, que visitou Camilo em Seide, na Póvoa, no Porto (onde passeavam juntos) e até em Lisboa, referiu-se ao romancista, por mais de uma vez, enquanto vivo: em 1888 festeja no Norte (de 16 de março) o aniversário do romancista, ao mesmo tempo que publica nesse jornal (e simultaneamente no Primeiro de Janeiro) um artigo intitulado "Uma visita a Ceide/Notas dum jornal [diário]. 10 de dezembro de 1887", que seria reimpresso, com alterações, nas Novidades (n.° 5871, de 1-6-1903). Lembrá-lo-á ainda, em 1915, no Contra Um Plágio do Prof. Teófilo Braga ["Há trinta anos (1885), já quando a torturante doença lhe dava os últimos sacões, passeávamos os dois na Praça Nova"] e, em 1925, no Camilo e António Aires e De como Me Casei. Devido a este conjunto de circunstâncias extraordinárias, em que preponderava a solidez da amizade (que nos lembremos só existe uma fotografia de Camilo acompanhado, e essa fotografia retrata o romancista ao lado de Ricardo Jorge), os camilianistas consideravam Ricardo Jorge o único capaz de escrever a "autêntica" biografia do "mártir" de Seide. Nunca o fez. A este respeito Brás Burity estampou no Diário de Notícias (n.° 26 441, de 17-9-1939), por ocasião do falecimento do notável cientista, um artigo significativo intitulado "Mestre Ricardo Jorge e a sua frustrada obra sobre Camilo Castelo Branco", O autor, que fora amigo do higienista, a quem trata por mestre e "o Maior de Todos", interrogara-o uma certa ocasião por que "não escreveu ainda" o trabalho sobre Camilo? Ricardo Jorge justificou-se: uma vez levara Guerra Junqueiro ao Hotel Paris, "onde Camilo acamara com uma das periódicas e cruciantes crises do seu tabes", passando o resto da noite a conversarem sobre o romancista. Burity reproduz as palavras de Ricardo Jorge: "[...] ouvi o Junqueiro, em rajadas de inspiração, em lampejos de génio, em frases coruscantes de Justiça, em síntese resplandecente de Verdade, escalpelizar, fibra a fibra, nervo a nervo, toda a individualidade intelectual e moral de Camilo, dando do Homem e do Escritor traços tão firmes e exactos, notas tão rigorosas e verdadeiras, observações tão flagrantes e subtis, que, tudo, tudo quanto havia a dizer-se de Camilo, tudo foi adivinhado e dito, naquela noite, pelo Junqueiro".

Conta ainda Brás Burity que, nessa ocasião Ricardo Jorge, abrindo "um gavetão de um velho e precioso contador, no seu gabinete de trabalho, no Campo de Santana, confidencialmente me mostrou vários autógrafos de Camilo - inéditos, íntimos e impublicáveis". Devia tratar-se, ao que presumimos, das cartas recebidas do romancista, espólio que hoje se encontra na Casa-Museu de Camilo.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003