Sena Freitas
(1840-1913)

Nascido em Ponta Delgada, filho do Comendador Bernardino de Sena Freitas, José Joaquim de Sena Freitas, que ficaria conhecido por Padre Sena Freitas, frequentou os seminários de Santarém e Coimbra, concluindo o curso teológico em Paris, no Seminário de S. Lázaro. Sacerdote exemplar e ilustrado, legitimista como seu pai, percorreu vários países da Europa e o Brasil como missionário, por diversas vezes, exercendo ainda o professorado e o jornalismo. Orador brilhante, escritor e polemista, fundou e dirigiu O Progresso Católico, de Guimarães (n.°1 de 30-10-1878), traduziu Os Jesuítas, de Paul Féval, e escreveu, além de muitas outras obras, o Perfil de Camilo Castelo Branco (ed. brasileira de 1887). Depois da República foi cónego da Sé Patriarcal de Lisboa. Era irmão dos jornalistas José de Sena Freitas e padre Bernardino de Sena Freitas.

O padre Sena Freitas foi um dedicado amigo e admirador de C.C.B. Supomos que se conheceram por volta de 1874, consolidando-se as relações a partir de 1877. Estiveram juntos na Póvoa de Varzim, onde faleceu nesse ano Manuel Plácido. Ao saber da triste nova (da morte do "sobrinho de V. Ex.ª"), Sena Freitas escreve ao romancista para "transmitir à Ex.ª Sr.ª D. Ana Plácido a expressão do meu profundo sentimento pelo terrível golpe". (Carta de 1 de Outubro). Sena Freitas visita depois o amigo em S. Miguel de Seide, conhece Ana Plácido e interessa-se em legitimar a união dos amantes. Pede a Camilo (por mais de uma vez) para mandar vir de Lisboa a sua certidão de nascimento para organizar o processo matrimonial. "Desejo eu mesmo (escreve na carta de 30-11 -1879) ser quem abençõe uma união que me enche de tão vivo prazer". O padre Sena Freitas não assistiu ao casamento Camilo/Ana Plácido. Sabemos, no entanto, que, estando no Brasil (desde 1885), e informado de que finalmente se realizara o consórcio do amigo, lhe escreveu do Seminário de S. Paulo: "Aproveito a ocasião para lhe dar meus cordialíssimos parabéns pelo seu enlace conjugal. Só tive o ferro de que não fosse eu a testemunha sacerdotal do sacramento, embora em tempo tivesse dado alguns passos para isso. Lembra-se?" (Carta de 6-3-1886, em depósito na Casa-Museu de Camilo.) Sena Freitas estava equivocado. E que o casamento fora dado como realizado em várias épocas, mas só se consumou dois anos depois, a 9-3-1888.

Foi também por intermédio do padre Sena Freitas que C.C.B. conheceu pessoalmente o padre Casimiro José Vieira. Ambos o incitaram a publicar os Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte. Camilo chegou a ter em seu poder o original, o que lhe permitiu (estimulou) escrever por seu turno a Maria da Fonte, projetada há anos.

Por várias vezes, o nosso romancista se referiu ao seu amigo padre Sena Freitas:

1. Nos Ecos Humorísticos do Minho (1880): "No Brasil viveu e missionou muito tempo o padre Sena Freitas, da congregação de S. Vicente de Paulo, então moço na flor da juventude, e hoje, ainda novo, domiciliado no Colégio de Santa Quitéria, em Felgueiras [...]. A esta hora está ele em Abragão no concelho de Penafiel. Um sacerdote de igual talento, se vivesse em França, estaria em Notre Dame. O nosso, o mais mavioso e impressivo orador moderno, está na igrejinha de Abragão, falando aos humildes a linguagem remodelada pela humildade do alto espírito que quer levantar até si os baixos entendimentos" (op. cit., ed. de 1880, 2.º fascículo, pp. 8-9).

2. Nos Narcóticos (1882): (A propósito da tradução de Os Jesuítas, de Paul Féval, e depois de rectificar um lapso do tradutor, ao afirmar que os conspiradores contra D. José I "foram encarcerados em cadeia construída recentemente abaixo do colégio de Santo Antão. Não havia tal cadeia"). "O tradutor deste livro é conhecido como vigoroso prosador e polemista de apertar os adversários, sorrindo entre dous adjectivos. Se em vez de seguir o ministério sacerdotal, Sena Freitas se empregasse nos marnéis das letras profanas, seria um escritor humorístico, mordente e, ao mesmo tempo, exemplar das mais clássicas e coloridas graças portuguesas" (op. cit., ed. de 1920,II, p. 81).

3. Na Maria da Fonte (1885): (Do "Discurso Proemial") "Há cinco anos [em 1879], pernoitou nesta casa de São Miguel de Seide um clérigo de variadíssima ciência de um trabalho indefeso no serviço da religião; e, na flor dos anos, pujante de seiva para lutar, barba por barba, com os atletas do estilo e da zombaria voltaireana. Era o padre Sena Freitas o meu querido e inesperado hóspede. […] / Cuidavam os senhores, talvez, que eu ia dizer que Sena Freitas estava com os padres Grainha e Marnoco? Não sei isso, com certeza, quanto ao Syllabus; mas o averiguado é que ele estuda e sabe tudo quanto a Natureza de Lucrécio desfilada nos alambiques da química, e granulada em miudezas de ciência pode ensinar e fosforear na massa cerebral. E a exuberância do que aprendeu é tamanha que o padre Sena Freitas está convencido de que há Deus e que a alma é imortal" (op. cit., ed. Lello de 1961, pp. 7-8). Sabe-se que, sendo profunda a amizade entre os dois escritores, os seus pontos de vista sobre matéria religiosa divergiam com frequência. (Sena Freitas o reconheceu, em 1887, numa carta enviada do Brasil: "apesar da divergência das nossas ideias religiosas"). Uma das vezes que tal aconteceu foi em 1883, no decurso da polémica com José Maria Rodrigues, conhecida por "Questão da Sebenta". Indignado com a leitura da "tréplica", em que Camilo vergasta o discípulo do Dr. Calixto (cons. Polémicas de Camilo, de A. C., vol, IX, pp. 20-41, onde vem a "Tréplica ao Padre"), Sena Freitas envia ao romancista uma extensa epístola (12 páginas, nada menos), verberando-o por "salpicar dos piores sarcasmos a fé, que tem sido o património de milhares de gerações". Ao referir a linguagem bravia utilizada no folheto, comparada com a outra, suave e dulcificante, o que demarca duas personalidades distintas, traça a propósito a síntese do carácter camiliano: "Em V. Ex.ª há dois homens que não têm ponto algum de contacto entre si, e eu não conheço ninguém mais diferente V. Ex.ª que V. Ex.ª […] Ainda quando o meu amigo fosse um só eu estimá-lo-ia sempre, mas continuo a amar em V. Ex.ª um dos homens que em si coexistem, o homem bom, sereno, reflexivo e crente" (carta de 16-7-1883, existente em Seide).

Sena Freitas partiu pela segunda vez para o Brasil em 1885, como já o dissemos, continuando a corresponder-se com Camilo e a enviar-lhe algumas publicações da sua autoria, entre elas o Perfil de Camilo Castelo Branco (1ª ed., brasileira e de 1887). Nesse mesmo ano, circulou no Brasil a notícia de que o "Primeiro Romancista Português" ia reeditar o Cancioneiro Alegre (de Poetas Portugueses e Brasileiros), incluindo nele o folheto Os Críticos do "Cancioneiro Alegre". A novidade chegou a S. Paulo e ao conhecimento de Gaspar da Silva, um dos zurzidos antagonistas brasileiros, ao tempo redactor do Diário Mercantil e amigo do padre Sena Freitas, que se apressou a escrever a Camilo: "Ora este Gaspar da Silva soube pelos jornais que se ia brevemente reimprimir o Cancioneiro Alegre. Neste livro é ele um dos malhadeiros da crítica alegre e incisiva de V. Ex.ª Paciência. Mas o que o paciente não desejava por forma alguma é que reaparecesse em 2.ª edição uma nota que se encontra na secção a ele referente, no dito Cancioneiro" (Carta de S. Paulo, de 19-9-1887).

A "nota" em questão deve ser esta: "Por um sentimento de caridade não direi os motivos que levaram um certo Boaventura da Costa [o homem chamava-se Boaventura Gaspar da Silva Barbosa], em Portugal, a chamar-se Gaspar do Silva, no Brasil. Quando se enfastiar desta crisma deve chamar-se Lazarillo de Tormes, e depois Gusman de Alfarache".

E continua Sena Freitas na defesa de Gaspar da Silva: tratando-se de problema que "roça-lhe um pouco pelos costumes ou pela vida privada", pediu-lhe para que intercedesse junto do autor, de quem sabia ser amigo, para eliminar "a terrível nota na edição do seu livro".

Acontece que a 2.ª ed. do Cancioneiro Alegre (1887), que passou a acopular, no final do 2.° vol., Os Críticos do "Cancioneiro Alegre", apareceu nos mercados português e brasileiro sem a mínima alteração.

As consequências foram inevitáveis: interrompeu-se definitivamente a correspondência (e as relações?) entre C.C.B. e Sena Freitas.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003