Tomás Ribeiro
(1831-1901)

Nascido em Parada de Gonta (distrito de Viseu), filho de lavradores abastados, Tomás António Ribeiro Ferreira, que se celebrizou como poeta com o nome simplificado de Tomás Ribeiro, formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, exercendo por pouco tempo a advocacia. Ocupou cargos públicos de relevância: deputado várias vezes (de 1862 a 1894), par do reino e ministro também várias vezes (1ª em 1878-1879 e última em 1890-1891). Foi presidente da Câmara Municipal de Tondela; secretário-geral do governo da Índia (1870), quando era governador o visconde de São Januário, que acompanhou; governador do distrito de Bragança (1872) e do Porto (1881). Colaborou na imprensa e participou em actividades culturais, como nas sessões do Colégio Artístico Comercial, dirigido por José Maria de Andrade Ferreira, com uma preleção sobre "A poesia popular e o seu influxo na educação" (v. O Nacional, n°41, de 22-2-1866). Da roda de António Feliciano de Castilho, que lhe prefaciou calorosamente o livro de estreia, D. Jaime ou a Dominação de Castela (1862), provocando celeuma nos meios intelectuais pelo facto do paraninfo colocar os talentos do jovem poeta acima de Luís de Camões (v. Notas Oitocentistas/Il/Luís de Camões Poeta do Povo e da Pátria, de A. C., ed. Livros Horizonte, pp. 103 e seg.). Publicou ainda, entre outros títulos: A Delfina do Mal e Sons Que Passam (1868); A Indiana, entreato dramático (1873), representado no Teatro de D. Maria II; Vésperas (1880), e Dissonâncias (1890).

Tomás Ribeiro travou relações com o romancista em Lisboa, em 1863, conforme lhe lembrará a viscondessa de Correia Botelho numa carta acrimoniosa (de 8-12-1890), por causa de falharem os seus desejos de colocar o filho Nuno como diretor da Companhia dos Caminhos de Ferro do Minho e Douro (já referido quando tratámos de Nuno Plácido Castelo Branco; cons., para o efeito, o livro de Veloso de Araújo Camilo em São Miguel de Ceide, pp. 171 e seg.): "Conheci-o há 27 anos na minha casinha do Salitre, apresentado por Castilho". (1890-27= 1863).

Em 1866, ao publicar-se a 3.ª ed. de Um Livro, Tomás Ribeiro escreveu ao autor uma carta (ainda cerimoniosa) que serviu de prefácio e na qual se refere a Castilho ("o meu mestre, e nosso comum amigo"). Nesse mesmo ano acompanha o mestre a Seide, provocando-lhe a visita uma profunda impressão. Dirá depois a Castilho: "Ando meio tonto de saudades; o Camilo foi o diabo que nos apareceu. Os seis dias que passámos juntos fizeram época na minha vida" (in Castilho e Camilo, p. 108; carta de Castilho de 25-7-1866).

Foi a partir da excursão a Seide que começou a consolidar-se uma amizade sólida, fraternal, solidária em todas as emergências. Na correspondência trocada entre os dois amigos transparece esse sentimento que não sofrerá qualquer mácula ao longo dos anos. Tomás Ribeiro era o esteio firme em que o romancista confiava plenamente, de que é testemunho entre muitos outros - a carta que o romancista lhe escreve a 16-12-1873 a solicitar a sua influência na obtenção do viscondado: "Queres tu dar aos meus filhos a porvindoura consolação de poderem dizer que seu pai quinhoou das mercês que se liberalizaram aos bacalhoeiros ricos?" (In Cartas de C. C. B. a Tomás Ribeiro, p. 29).

Sucedem-se as recíprocas amabilidades. Em 1881 o poeta é convidado para o casamento de Nuno Plácido Castelo Branco. ("Sabes com que alegria és festejado em Seide"). Foi o poeta quem apresentou ao rei o editor Eduardo da Costa Santos para lhe oferecer um exemplar de O General Carlos Ribeiro ricamente encadernado (1884); foi ele o promotor da nobilitação do romancista (1885) e quem persuadiu o famoso oftalmologista Gama Pinto a deslocar-se a São Miguel de Seide para observar o ilustre enfermo (1888). Talvez antes (finais de 1887?), Camilo passou uma temporada em Carnaxide, onde recebeu a visita de Oliveira Martins, Bulhão Pato, Antero de Quental, António Cândido, Sousa Martins, Tomás de Carvalho. (Informação da filha do poeta, Branca de Gonta Colaço, no prefácio às Cartas de C. C. B. a Tomás Ribeiro, pp. 18-19). Por essa altura (1887) enviou-lhe Camilo uns versos para o poeta emendar, que depois agradece: "Desaleijaste alguns dos mancos. Deus te conserve ileso em todas as tuas metrificações tanto corporais como espirituais. Amen" (ibidem, p. 87; carta s/d.).

Manifestaram publicamente o mútuo respeito e admiração. Camilo dedica-lhe em 1876 a Maria Moisés (a VII das Novelas do Minho): "Que faria de ti a política, meu querido, meu poeta da pátria e da alma?" Insiste nesta ideia em 1879, no Cancioneiro Alegre, ao falar do D. Jaime: "Fez tempestades no mar morto da literatura. "Aqui d'el-rei que ele não é melhor que o Camões, e o D. Jaime não pode medir-se com os Lusíadas, como quer o Castilho!"" (op. cit., I, p. 64, da ed. de 1927). Em 1882 o romancista escreveu um "Prólogo" para a reedição de A Delfina do Mal, recolhido no mesmo ano nos Narcóticos. Em 1890 é a vez de Tomás Ribeiro lhe consagrar as Dissonâncias: "A/Camilo Castelo Branco/visconde de Correia Botelho/CONSUMADA GLÓRIA DAS LETRAS PORTUGUESAS", e escreve um "Prólogo" para a 3ª ed. de O Romance Dum Homem Rico.

Nas duas publicações que Tomás Ribeiro fundou - Repúblicas, em 1884, e O Mensageiro, em 1889 -, Camilo foi director literário da 1.ª e seu colaborador na 2.ª (colaborador único). Até Ana Plácido deu a sua contribuição no constante louvaminhar a Tomás Ribeiro. Foi em 1868, na Gazeta Literária do Porto, ao apreciar o livro de versos Sons Que Passam, assinando-se "Gastão Vidal de Negreiros": "Tomás Ribeiro é um ser privilegiado; é poeta... quero dizer, é um infeliz! Os benfadados deste mundo não escrevem livros. Quando muito, enchem duas resmas de papel cantando a vizinha da trapeira, ou a criada do estanque próximo" (n°4, pp. 38-40).

Alberto Pimentel reproduz o episódio que ouvira a Francisco Correia de Carvalho: um dia chegara à quinta de Seide uma carruagem. Camilo pensou tratar-se de alguma visita, mas não se via ninguém. "Então descobriram o vulto de um homem junto ao monumento [a Castilho], e voltado para ele. Aproximando-se cautelosamente, pé ante pé, reconheceram nesse estranho visitante Tomás Ribeiro, que chorava, abraçando-se com a pedra" (in Os Netos de Camilo, p. 17).

Registe-se, por fim, que as duas mais conhecidas obras de Tomás Ribeiro - D. Jaime e A Delfina do Mal - deram origem a dois poemas herói-cómicos: Manuel Roussado publica Roberto ou a Dominação dos Agiotas, em relação à primeira, e Guilherme Braga publica O Mal da Delfina, em relação à segunda.

In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003