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09 jun. 2026 - Casa de Camilo – Museu Centro de Estudos

Dia Internacional dos arquivos

O Arquivo de Camilo Castelo Branco contém no seu acervo uma série documental designada Correspondência. Dessa série composta por centenas de cartas recebidas e expedidas por Camilo destacamos, neste Dia Internacional dos Arquivos, um documento da subsérie Correspondência expedida, que cremos ser digno de destaque pela importância que teve na vida do escritor.
Trata-se da carta que Camilo enviou ao rei D. Luís agradecendo-lhe o título nobiliárquico de Visconde de Correia Botelho, concedido por um decreto datado de 18 de junho de 1885. Uma distinção que muito agradou o escritor pois viu nessa mercê o reconhecimento oficial do rei pelo seu vasto contributo para a cultura nacional. 

Transcrevemos a carta (em conformidade com o acordo ortográfico)

Senhor

Se eu tivesse a consciência das minhas últimas horas de vida, sentiria a mágoa acerba de morrer sem que Vossa Majestade houvesse concedido uma demonstração de estima à minha longa e despremiada tarefa literária de quarenta anos. Eu morreria queixoso de Vossa Majestade – se nos paroxismos da vida ainda cabem queixumes, vaidades e ressentimentos. Morreria magoado porque Vossa Majestade é Rei ilustrado, é um erudito, é um escritor; e, se o Rei, em condições quase excecionais, não tinha visto em mim algum relevo que me enaltecesse de entre o vulgo dos fanqueiros da pena, ser-me-ia forçoso duvidar do meu merecimento por não poder duvidar da compreensão e critica luminosa de Vossa Majestade.

Nobilitou-me Vossa Majestade justamente quando a minha peregrinação está no derradeiro dia. Já me não valerá o galardão como incentivo para atingir pontos culminantes onde chega o engenho animado por um Rei que dá exemplo aos que trabalham por amor às letras ou por necessidade de as cultivarem como quem grangeia uma charneca estéril.

Morro, porém, contente, meu Senhor, por que o nome de Vossa Majestade fica vinculado à minha obra pelo testemunho que a mercê concedida lhe assiná-la em valor e duração. Além de que, a munificência régia que me engrandeceu jamais será acoimada de iniqua ou caprichosa, visto que abaixo de Vossa Majestade se ouviram aplausos que eu nunca experimentaria se El Rei os não houvesse promovido. Foram os dois títulos que Vossa Majestade me deu, e um deles é singular. Devendo eu tanto a Vossa Majestade, deploro que a doença me não permita a suprema honra de beijar a mão de Vossa Majestade, balbuciando as expressões da minha indelével gratidão.

De vossa Majestade

 súbdito reverente e humilde criado

Visconde de Correia Botelho

S. Miguel de Seide

2 de julho de 1885