
Natural do Porto e formado em Direito (1846) pela Universidade de Coimbra, Evaristo José de Araújo Basto, conhecido e laureado no mundo das letras por Evaristo Basto, foi um espírito irrequieto, na juventude, e uma autêntica notabilidade portuense. Exerceu a advocacia, foi depois escrivão numa das varas judiciais do Porto. Esteve envolvido nas lutas liberais de 1846-1847, foi secretário, em 1855, da Assembleia Portuense e fez parte da comissão encarregada da reforma dos estatutos do teatro (1858), de que viria a demitir-se. Notabilizou-se sobretudo como jornalista (também poetou), tendo colaborado em A Coalisão, fundando a seguir O Nacional (1846), de que era proprietário José Joaquim Gonçalves Basto. Demite-se, 10 anos depois, do cargo de redactor, devido a divergências com o proprietário sobre o ministro da Justiça da época (v. O Periódico dos Pobres, n.º 149, de 25-6-1856). Nesse ano sofre um acidente de carruagem, de que nunca se restabeleceu.
A amizade de C. C. B. e Evaristo Basto começa em 1848 (provavelmente antes), a serem verdadeiras as contas de Camilo na Peregrinação sobre a Face do Globo (E. B. participou em 1856 na viagem a Braga, com Camilo, José e Luís Barbosa): "Aí tendes o meu amigo de oito anos, o mais antigo de todos, época feliz em que alcancei quatro, dous dos quais não têm já neste mundo senão o nome em raras almas que o mereceram" (in Duas Horas de Leitura, 8.ª ed., p. 121). E. B. foi redactor, em 1856, de O Clamor Público, com C. C. B., Alexandre Braga e A. Coelho Lousada, e, mais tarde, colaborou ainda no Jornal do Porto.
Além do retrato que, em 1856, lhe traçou na Peregrinação sobre a Face do Globo, incorporada em seguida nas Duas Horas de Leitura ("Aqui tendes uma maravilha: E. B. não tem o seu nome no frontispício de um livro! [...] Se lhe dizeis que cobre paciência para o trabalho aturado, e escreva um livro, que seja a flama purificada do muito que leu, responde-vos que esqueceu tudo o que sabia; e com os olhos postos na deusa da ociosidade, que lhe sorri de entre o fumo do charuto, murmura, na mais santa beatitude, uma cáustica apoteose aos sandeus que escrevem, sem poderem dizer que esqueceram alguma coisa que souberam" (op. cit., 8.ª ed., pp. 119-120), Camilo falou do amigo em muitas ocasiões (quase) sempre em termos onde transparece a mais profunda estima e admiração. Em 1870, em A Mulher Fatal, quando introduz o protagonista da novela, Carlos Pereira, que lhe fora apresentado por José Barbosa e Silva: "Estava também Evaristo Basto, o príncipe dos folhetinistas daquele tempo" (op. cit., 10.ª ed., p. 31).
Aliás, repete esta afirmação incansavelmente: em 1879, no Eusébio Macário, quando descreve a mascarada no Teatro de S. João, em Terça-Feira de Entrudo, com o Trigueiros, o Faustino Xavier de Novais e o Evaristo Basto, "o criador do folhetim no Porto"; em 1887, na "Procissão dos Mortos": "Foi o implantador do folhetim Revista semanal, no Porto. Ninguém o rivalizou, a não ser Ricardo Guimarães" (v. Óbolo às Crianças). Ainda, ou sobretudo, na série sobre os Escritores Portuenses, que abre com o seu nome (in Mundo Elegante, de 1859), onde afirma mais uma vez: "Em 1848 o escritor mais festejado do Porto era Evaristo Basto. O seu género era o folhetim noticiarista, ou, pelo menos, com o folhetim é que ele benquistara o conceito, os gabos, e a admiração" (v. Dispersos, III, p. 333). Sempre o enalteceu como prosador notável, mas como poeta, ao contestar a utilidade da fundação no Porto de um "grémio literário" (à imitação do de Lisboa), foi-lhe desfavorável: "Versos errados de Evaristo Basto e Alexandre Monteiro são as económicas razões que dais para a criação dum grémio literário?".
Uma única vez - porventura - a solidez da amizade deu de si. Foi no decurso de 1859, quando C. C. B., para abrandar a cólera de Manuel Pinheiro Alves, procurava que Ana Plácido recolhesse a convento. Ora, recorreu a Evaristo Basto para diligenciar a entrada de Ana no Convento de Santa Clara, no Porto (ficava-lhe mais à mão, mas a ideia era descarolável, por isso repelida), ou no Convento de Santa Ana, em Viana do Castelo, por intervenção de José Barbosa e Silva. Numa carta a este amigo, versando a melindrosa diligência, Camilo escreveu: "Se tu podes conseguir o recolhimento imediato diz-lho a eles [aos intermediários de Pinheiro Alves], e a mim, para eu ser explícito com o Evaristo, que anda neste negócio com muito pouca lealdade; mas eu entendo-o, e sei quantas vezes a dependência é a máscara da desonra" (in Correspondência de C.C.B., de A. C., II, p. 86; carta de 28-5-1859).
Uma última observação. Em 1864, No Bom Jesus do Monte, o capítulo dedicado ao ano "1855" é inteiramente preenchido com uma carta a Evaristo Carvalho. Tudo quanto se narra nesse trecho são reminiscências da já referida excursão a Braga:
"Era no tempo em que tu, e José Barbosa, e Luís Barbosa, e eu tínhamos a ténia" (op. cit., p. 111). O facto ocorreu em 1856, e não 1855, e o Evaristo Carvalho é, sem qualquer dúvida, o Evaristo Basto.
In CABRAL, Alexandre - Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa : Caminho, 2003